De como vamos salvar os media (sem fingir que ainda não estão a arder). Por José Vieira Mendes
Há uma ironia deliciosa — e um pouco desesperada — no facto de estarmos a discutir como salvar os media ao mesmo tempo que consumimos mais informação do que nunca. Nunca houve tantas notícias, tantas opiniões, tantos “especialistas”, tantos vídeos a explicar o mundo em 30 segundos. E, no entanto, raramente parece que percebemos melhor o que se passa. O ruído aumentou, a clareza diminuiu. A economia da atenção venceu a economia da verdade. E os media tradicionais, aqueles que supostamente deveriam organizar o caos, passaram a viver dentro dele.
O caso recente da campanha de crowdfunding da VISÃO não é apenas uma história portuguesa sobre uma revista que quer sobreviver. É um sintoma global. Um laboratório. Um aviso. E, possivelmente, uma pista para o futuro. Quando uma redação decide tentar comprar o próprio título para garantir independência editorial, está implicitamente a dizer duas coisas: que o modelo antigo falhou e que o novo ainda não está totalmente inventado.
Durante décadas, os media viveram de publicidade, influência e escala. Quem tinha mais páginas, mais antena ou mais tempo de emissão ganhava. A internet prometeu democratizar tudo, mas acabou por concentrar quase tudo nas plataformas. Hoje, a maior parte da receita publicitária não vai para quem produz jornalismo, mas para quem distribui distração. A informação tornou-se matéria-prima gratuita para algoritmos que não distinguem uma investigação de meses de um boato inventado num quarto.
É aqui que entra a ideia — quase revolucionária por parecer tão básica — de que o jornalismo deve ser financiado por quem........
