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Carlos Queiroz, o homem a quem Portugal deve mais do que gosta de admitir

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04.07.2026

Portugal eliminou ontem a Croácia, nesse género de jogo que deixa metade do País rouco, a outra metade medicada e os croatas convencidos de que a tecnologia foi inventada num laboratório secreto da FIFA. Foi uma vitória portuguesa, mas daquelas que vêm com reclamação aberta e talvez direito a livro de reclamações. Ganhámos 2-1, seguimos em frente, e daqui a uns anos só ficará a fotografia oficial: Portugal nos oitavos, Croácia em casa, Luka Modrić a sair lentamente da História e Cristiano Ronaldo a continuar a discutir com o calendário.

Mas o jogo teve uma verdade demasiado luminosa para ser escondida no rodapé: Gonçalo Ramos saltou do banco e resolveu. Não resolveu com uma carambola, um ressalto piedoso ou uma daquelas bolas que entram porque Deus foi ao frigorífico e se distraiu. Resolveu com uma cabeçada limpa, autoritária, magnífica, metida entre defesas croatas como quem abre uma janela numa casa cheia de fumo. E agora vem a pergunta, incómoda, desagradável, quase proibida em horário nobre de comentários sobre o Mundial: qual vai ser a próxima justificação para o deixar sentado enquanto se transforma o onze nacional numa espécie de museu vivo da eternidade de Cristiano Ronaldo?

Atenção, insisto: ninguém está a apagar Ronaldo da História. Ontem, quando o mundo parecia outra vez organizado em torno do ritual do costume — penálti, bola parada, câmara em Cristiano, silêncio, respiração, destino, golo — apareceu Gonçalo Ramos a recordar uma coisa simples: no futebol, o futuro também marca golos. E, às vezes, fá-lo de cabeça, com um magnífico cruzamento de Rafael Leão, que também tem de estar mais tempo em campo.

O homem que ensinou futebol a Portugal

E é daqui que chegamos a Carlos Queiroz. Porque esta madrugada, às 02h30 de sábado em Lisboa, no Arrowhead Stadium, em Kansas City, o selecionador do Gana enfrenta a Colômbia, seleção que também já treinou, como quem reencontra uma ex-mulher talentosa, perigosa e capaz de lhe estragar a noite com um contra-ataque. Queiroz, com 73 anos, estará ali: com o seu olhar de professor que apanhou a turma a copiar no teste, caderno invisível cheio de setas, coberturas, diagonais e pequenos venenos táticos. Desejo-lhe a maior das sortes. Não por patriotismo de ocasião, nem por ternura de almanaque, mas por uma razão muito mais séria: Carlos Queiroz merece que Portugal se lembre dele sempre, sem franzir o sobrolho.

Porque Portugal tem esta mania: adora o bolo, despreza o pasteleiro. Gosta da festa, esquece quem montou as mesas. Bate palmas aos jogadores quando levantam taças, mas torce o nariz ao homem que ajudou a convencer um país inteiro de que também podíamos ganhar aos grandes do futebol. Antes de Queiroz, Portugal era muitas vezes aquela equipa simpática e talentosa que ia aos torneios internacionais com a mala cheia de camisolas bonitas e a cabeça cheia de complexos. Jogávamos bem, fazíamos umas fintas, encantávamos uns estrangeiros, perdíamos com dignidade e voltávamos para casa a dizer que “ao menos mostrámos bom futebol”. Era a nossa grande especialidade nacional: sermos eliminados com literatura.

Queiroz não gostava dessa poesia da derrota. Chegou à Federação com métodos, relatórios, treino pensado, observação, ciência, exigência, organização. Palavras que no futebol português da altura deviam soar a coisas perigosas, quase estrangeiras, talvez........

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