“Mínimos e os Monstros”: a América faz 250 anos e Portugal fica no buraco 18
Portugal recebe a estreia de Mínimos e os Monstros, os EUA celebram 250 anos da Declaração da Independência e Donald Trump, sempre generoso na arte de transformar qualquer efeméride histórica num anúncio imobiliário com bandeira MAGA ao fundo, envia uma mensagem ao embaixador americano em Portugal a dizer que adora o país, elogia os nossos “magníficos campos de golfe” e admite vir visitar-nos “talvez em breve”. Ou seja: Jefferson escreveu que todos os homens nascem iguais; Trump atualizou a frase para todos os homens nascem iguais, sim senhor, mas alguns têm handicap, buggy e vista para o Atlântico.
Comecemos pelos Mínimos, porque convém começar pelos personagens mais sérios desta semana. Em Mínimos e os Monstros, as criaturas amarelas da Illumination vão parar ao Hollywood dos anos 20, tornam-se estrelas acidentais do cinema mudo, descobrem que falar é um problema quando o cinema começa a falar e resolvem fazer um filme de monstros usando monstros a sério. É uma premissa lindíssima, até porque resume com uma precisão quase documental o século americano: chega-se a Hollywood, tropeça-se, inventa-se uma indústria, fica-se rico, perde-se o controlo da criatura e depois chama-se a isso entretenimento global.
Hollywood, a outra Declaração de Independência
A América faz 250 anos a 4 de julho e continua a ser, gostemos ou não, o maior estúdio de cinema do planeta. Não apenas no sentido literal, com câmaras, franchises, sequelas, bonecos, parques temáticos e pipocas vendidas como se fossem obrigações do Tesouro. Mas no sentido mais profundo: os EUA filmaram-se tão bem a si próprios que acabámos todos quase a viver dentro de um trailer de Hollywood. A Casa Branca tem planos de contra-picado, o Presidente entra sempre como personagem principal, o povo é figurante patriótico, os inimigos chegam em música grave e a liberdade aparece frequentemente montada a cavalo, com explosões e efeitos especiais atrás.
Durante dois séculos e meio, a América vendeu-nos a ideia de que era simultaneamente país, promessa, império, western, musical, tribunal, supermercado, guerra, sonho, pesadelo e parque de estacionamento muito grande junto a uma zona comercial. E nós comprámos. Comprámos hambúrgueres, jazz, jeans, Internet, Marvel,........
