A liberdade que ainda não somos: Agostinho da Silva à luz de um país em turbulência
Num tempo em que Portugal parece viver entre rajadas de medo e breves clarões de esperança, regressa-nos Agostinho da Silva − não como memória, mas como desafio. No ano em que celebramos os 120 anos do seu nascimento, descobrimos que a liberdade, essa palavra tantas vezes gasta, não é um destino conquistado, mas uma obra inacabada, “uma coisa que nunca é, mas que se vai criando; só o fatal é sempre”. E talvez o maior perigo de 2026 seja este: termos esquecido que a liberdade se perde, precisamente, quando deixamos de a criar.
O século de Agostinho
Há pensadores que pertencem ao passado. Agostinho da Silva pertence ao futuro.
Quando nasceu, em 1906, Agostinho da Silva abriu os olhos num continente que vivia uma estranha embriaguez: a Europa entregava-se ao fascínio do progresso − fábricas luminosas, ciência em expansão, invenções que prometiam um futuro sem limites − enquanto, no subsolo da História, se acumulavam presságios de catástrofe. Era o tempo da Belle Époque, radiante à superfície, mas atravessada de fissuras: nacionalismos inflamados, imperialismos rivais, alianças militares rígidas, uma confiança quase ingénua de que a civilização europeia caminhava para o seu apogeu. Mal suspeitava o continente de que aquela euforia era o prelúdio da maior tragédia coletiva que a Humanidade já conhecera. Agostinho nasce, assim, no cume de uma ilusão histórica: a crença na marcha irresistível do progresso.
Quando morreu, em 1994, o mundo parecia ter mudado de alma. O Muro de Berlim caíra, a União Soviética dissolvera-se, a Guerra Fria terminara − e muitos proclamavam, com entusiasmo quase místico, o início de uma era de paz racional. A democracia liberal era celebrada como horizonte inevitável, a globalização como promessa universal, a tecnologia como novo motor da Humanidade. Havia quem acreditasse, com uma confiança semelhante à da geração de 1906, que a História tinha finalmente encontrado o seu leito natural. E, no entanto − como sabemos agora −, aquela promessa continha, também ela, o risco da distração moral: enquanto o mundo proclamava o triunfo da razão, novas tensões, novas desigualdades e novos medos preparavam silenciosamente o século XXI.
Entre estas duas ilusões − a do progresso automático e a da paz definitiva − viveu Agostinho da Silva. E talvez seja justamente por ter atravessado estes dois enganos que o seu pensamento nos chega hoje com uma lucidez tão desarmante. Ele não acreditava na inevitabilidade histórica; acreditava na criatividade humana. Não se deixou seduzir pela euforia do progresso, nem pela arrogância do “fim da História”. Para ele, a liberdade não se recebia: criava-se. Não dependia do estado do mundo, mas da capacidade interior de cada pessoa para imaginar, renunciar, reinventar-se e criar sentido no meio do incerto.
Há uma passagem silenciosa, mas essencial, na obra e no pensamento de Agostinho: a infância como território sagrado. Não sagrado no sentido religioso; sagrado no sentido humano. A infância é onde a liberdade nasce − e onde pode morrer para sempre se a sufocarmos
Há uma passagem silenciosa, mas essencial, na obra e no pensamento de Agostinho: a infância como território sagrado. Não sagrado no sentido religioso; sagrado no sentido humano. A infância é onde a liberdade nasce − e onde pode morrer para sempre se a sufocarmos
Por isso a sua voz nos é tão necessária em 2026: porque este tempo, como o de 1906 e o de 1994, também se ilude − ora com a crença ingénua de que a tecnologia, a IA, resolverá tudo, ora com o mito de que a democracia se sustenta sozinha, sem cuidado, sem pensamento, sem coragem.
Nestas circunstâncias, a ideia de liberdade de Agostinho torna-se mais urgente. E também mais exigente. “A tua aproximação da liberdade passa pela tua solidão.”
Não se trata de isolamento. Trata-se de interioridade − de um chão firme onde o medo não dita o pensamento. É o contrário da pressa. O oposto da superficialidade. A negação suave, mas distante da propaganda emocional que hoje domina as redes sociais, os discursos políticos e, até, em certos momentos, a vida escolar, o mundo da Educação.
Se quisermos compreender a atualidade de Agostinho, devemos lê-lo como se estivesse a escrever-nos uma carta para este ano: uma carta para um país cansado, mas não vencido; para uma juventude inquieta, mas não perdida; para um tempo que corre muito depressa, mas pensa muito devagar.
A escola em tempos de tormenta
O pensamento educativo de Agostinho da Silva está espalhado como sementes ao vento na sua obra. Uma das mais luminosas surge quando descreve a escola como oficina do mundo, onde a criança não deve ser vista como recipiente, mas como “elemento activo na máquina do mundo”. É uma visão radicalmente contemporânea.
A escola portuguesa, pressionada por reformas sucessivas, por plataformas digitais, por burocracias que se multiplicam como ervas daninhas, tornou-se demasiado pesada para a leveza do pensamento e demasiado barulhenta para o silêncio que a aprendizagem exige. Os professores trabalham sob a lógica da vigilância; os alunos estudam sob a lógica da urgência. E ambos, frequentemente, vivem sob a lógica da exaustão.
Numa das crónicas que anteriormente escrevi, dizia que “o ensino tornou-se um lugar onde se confirma aquilo que o estudante já sabe, quando deveria ser o lugar onde ele se descobre capaz do que ainda não imaginou”.
A educação, para Agostinho, não é treino. É transfiguração.
Desafio da Inteligência Artificial
A entrada da Inteligência Artificial nas salas de aula tem sido celebrada como promessa de eficiência pedagógica. Mas, como escrevi noutras ocasiões − e aqui reinvento, sem violar a integridade de textos publicados −, o problema não está na ferramenta, mas na forma como tentamos resolver com tecnologia aquilo que é, e sempre foi, uma questão humana.
Hoje, a IA responde antes que a pergunta amadureça. Explica antes que o aluno deseje compreender. Entrega soluções prontas como quem serve fast food cognitivo. E é aqui que Agostinho ergue a mão, delicada mas firme, e diz: “O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta.”
Se a IA fizer tudo por nós, onde fica o poeta, o inventor, o criador, o sonhador, o empreendedor? Se a máquina pensar por nós, quem aprende? Se o algoritmo nos poupar ao desconforto da dúvida, o que resta da liberdade intelectual?
Retomando as minhas reflexões sobre educação e tecnologia, recrio uma imagem: “A escola não pode transformar-se no aeroporto do pensamento, onde tudo é automatizado e rápido. A escola é mais semelhante a uma montanha: sobe-se devagar, respira-se fundo, erra-se o caminho, volta-se atrás. É desse esforço que nasce a vista.”
Agostinho, Montaigne e Espinosa concordariam nisto: Não há pensamento sem demora. Não há liberdade sem esforço. Não há criação sem risco.
Foi Montaigne quem nos ensinou que nenhuma pergunta é pequena demais para o espírito humano. Foi Espinosa quem nos mostrou que compreender é libertar-se. Foi Agostinho quem reuniu estas duas forças − interioridade e universalidade − e lhes deu a forma portuguesa.
Onde Montaigne escreve a partir do autoexame, Espinosa escreve a partir da razão geométrica. Agostinho escreve a partir da visão. E é dessa visão que precisamos hoje. Agostinho diria: Uma comunidade livre é uma comunidade que cuida da imaginação dos seus jovens. Uma democracia madura é uma democracia que escuta. Um país sábio é aquele que compreende o mundo sem perder a alma.
Numa época em que a retórica agressiva substitui o argumento, em que o insulto substitui o diálogo e em que a raiva substitui a presença, precisamos da frase que um dia formulei − aqui recriada com uma nova respiração: “A maior coragem não é levantar a voz quando todos gritam; é mantê-la firme, serena e humana quando o mundo inteiro parece tremer.”
Espinosa sorriria. Montaigne assentiria. Agostinho caminharia connosco, descalço, como sempre imaginou os sábios.
A infância como pátria filosófica
Há uma passagem silenciosa, mas essencial, na obra e no pensamento de Agostinho: a infância como território sagrado. Não sagrado no sentido religioso; sagrado no sentido humano. A infância é onde a liberdade nasce − e onde pode morrer para sempre se a sufocarmos.
Nos recreios sem ecrãs − esses que descrevi numa das crónicas e que aqui reinvento −, a escola transforma-se em teatro da humanidade: risos, encontros, jogos improvisados, línguas cruzadas, amizade sem fronteiras. “É nos recreios onde as crianças correm atrás umas das outras que se ensaia, sem o saber, a democracia futura. É ali que se aprende a esperar, a negociar, a partilhar, a ceder − e também a ser.”
A infância, para Agostinho, não é uma fase transitória; é a reserva ética da humanidade. Por isso, ele defendia que a criança deve ser vista como colaboradora do mundo. Por isso, detestaria ver crianças reduzidas a consumidores de conteúdos. Por isso, diria, hoje, que estamos a confundir entretenimento com educação, e hiperconexão com humanidade.
Entre duas ilusões − a do progresso automático e a da paz definitiva − viveu Agostinho da Silva. E talvez seja justamente por ter atravessado estes dois enganos que o seu pensamento nos chega hoje com uma lucidez tão desarmante
Entre duas ilusões − a do progresso automático e a da paz definitiva − viveu Agostinho da Silva. E talvez seja justamente por ter atravessado estes dois enganos que o seu pensamento nos chega hoje com uma lucidez tão desarmante
Agostinho veria uma criança a ler num canto do recreio, ou um grupo de jovens de várias nacionalidades a rir em português, e diria − com a serenidade que lhe era própria: “É isto o humanismo português do futuro.”
Portugal vive um momento tenso: polarização crescente, discursos radicais, uma fadiga moral que se entranha, uma juventude ansiosa, uma escola sobrecarregada, um país dividido entre a tentação do pessimismo e a nostalgia de um passado idealizado. Muitos perguntam: para onde vamos? Agostinho perguntaria: de onde vimos?
E talvez respondesse que o verdadeiro perigo não é o caos político, nem a crise educativa, nem o avanço tecnológico descontrolado − mas o esquecimento da nossa vocação criadora. Quando deixamos de imaginar, deixamos de escolher. E quando deixamos de escolher, alguém escolhe por nós.
O que está em risco não é apenas um sistema educativo, nem apenas uma democracia. O que está em risco é a nossa capacidade de inventar futuro.
Reitero uma imagem que sintetiza este tempo: “Portugal parece caminhar à beira-mar num dia de temporal: cada onda traz destroços e mensagens, cada recuo da maré revela feridas antigas. Mas é entre essas ondas que se torna possível reconstruir.”
Agostinho diria que a finalidade da crise é revelar aquilo que importa. E aquilo que importa é sempre a liberdade. E aquilo que sustenta a liberdade é sempre o pensamento. E aquilo que alimenta o pensamento é sempre a infância. E aquilo que salva a infância é sempre a escola.
Liberdade como obra inacabada
O pensamento de Agostinho combina misticismo e rigor, imaginação e ética, renúncia e ousadia. Mas acima de tudo combina humanidade. Ele vê o ser humano como obra em perpétuo crescimento, vocacionado não para a obediência, mas para a criação; não para o consumo, mas para o encontro; não para o medo, mas para a confiança.
A liberdade não é estado. É processo. É tarefa. É destino que se constrói. Tudo isto nos conduz à conclusão que Agostinho talvez escrevesse assim − e que aqui formulo à minha maneira, inspirado por ele: “O futuro não é o que nos acontece; é o que ousamos imaginar e trabalhar. E nenhuma liberdade se mantém viva se não houver quem a cuide com coragem e quem a renove com criatividade.”
A liberdade, afinal, não está garantida. Mas continua possível. E essa possibilidade − luminosa, frágil, tremenda − depende de nós.
O que Agostinho diria a uma criança portuguesa em 2026
Imagino Agostinho, com o seu sorriso sereno, inclinado para uma criança num pátio qualquer de Portugal − talvez Aveiro, talvez Bragança, talvez Olhão − e a dizer-lhe: “Sê livre por dentro. E quando fores grande, ajuda os outros a serem livres também.” E é só isto. E é tudo isto. A liberdade que ainda não somos − mas que ainda podemos ser.
