Ponham Deus fora disso! Opinião de José Brissos-Lino
O inenarrável Secretário da Defesa de Donald Trump, que em boa hora o rebatizou como Secretário da Guerra, veio a público sugerir que as ações militares dos Estados Unidos contam com o selo da aprovação divina e estão imbuídas de moral cristã. Quanto à aprovação de Deus não sei que oráculo o governante frequentará ou em que escrituras sagradas se estriba para tão temerária afirmação. A não ser que sejam as mesmas do patriarca ortodoxo de Moscovo, Kiril, que não faz outra coisa senão benzer as armas que irão semear morte e destruição na Ucrânia, ou dos imãs extremistas que abençoam os homens-bomba.
Pete Hegseth invocou um “propósito divino” para justificar o poderio militar e o ataque a outro país, mesmo com o morticínio da crianças e seus professores que estavam na escola. Só se for o deus da guerra. No fundo estamos a regressar à lógica das cruzadas – o que interessa é matar os infiéis nem que para isso se arrasem populações e economias.
De caminho ainda teve a lata de apelar ao povo americano para que peça a Deus a “vitória em batalha” e a “segurança” dos militares. Nem uma palavra para com os milhares de vítimas inocentes, civis de todas as idades, incluindo mulheres e crianças.
O New York Times diz que Pete Hegseth sublinhou a “força esmagadora” e a “capacidade incomparável” das forças armadas dos Estados Unidos para lançar “morte e destruição do céu” sobre o inimigo iraniano “apocalíptico”. E continuou a abusar dum registo religioso pedindo aos americanos que “se ajoelhem” todos os dias “com a família, nas escolas e nas igrejas” em “nome de Jesus Cristo”. Além da gravidade do abuso de invocar o nome de Deus em vão, recorrendo a ele a fim de legitimar uma guerra onde se bombardeiam populações islâmicas.
Num programa de televisão, Hegseth gabou o poderio militar americano dizendo que as suas tropas são melhores, têm mais capacidade e vontade, insistindo que a providência do “Deus Todo-Poderoso protege as nossas tropas, e estamos comprometidos com essa missão.” Mas como se isso não fosse suficientemente grave, ainda insistiu numa ligação direta entre os evangelhos, a Bíblia e “o desenvolvimento da civilização ocidental e dos Estados Unidos da América”.
O Secretário da Guerra (só a designação diz tudo!) representa a fação neoconservadora de direita, dita cristã, da Administração de Donald Trump e foi essencial para a sua eleição. Mas vai em contramão com a Igreja Católica.
O Papa Leão XIV, que é americano, afirmou que “a violência jamais poderá levar à justiça, à estabilidade e à paz que os povos anseiam”, e, no Domingo de Ramos, rejeitou alegações de que Deus justifica a guerra.
O cardeal de Washington, Robert McElroy, fez uma distinção entre “rezar pela América e os seus militares” e o propósito divino invocado por Hegseth. Para aquele líder religioso, há um “imperativo moral” para acabar com a guerra.
O nacionalismo cristão branco nos EUA tornou-se uma doença espiritual, social e política que ameaça destruir a prazo a coesão social do país. De facto, o nacionalismo branco dito cristão não tem nada de cristão a não ser a retórica. Jonathan Sacks escreve em “Não em nome de Deus”: “O século XX mostrou, de forma brutal e definitiva, que os grandes substitutos modernos para a religião – a nação, a raça e a ideologia política – não têm menores probabilidades de oferecer sacrifícios humanos às suas divindades substitutas.” Daí a tendência para fazer a guerra invocando o divino.
Parte do espetro religioso norte-americano sofre de miopia ao não conseguir enxergar o cerne do evangelho de Cristo, que é o amor de Deus por todas as criaturas, sem distinção de cor de pele, de sexo, de religião ou de qualquer outra característica humana. Deus não é branco nem preto, nem homem nem mulher, e nem sequer é cristão. Está a ser usado apenas como pretexto para que os homens cometam as suas loucuras relacionadas com a luta pelo poder, com o respaldo dos crentes desavisados, ignorantes da sua própria fé ou fanáticos.
A verdadeira identidade cristã posiciona-se contra qualquer guerra desencadeada em nome de Deus, por tal conceito não passar duma aberração, sem apoio bíblico nem teológico. Mesmo considerando o Antigo Testamento, note-se que embora de início a bíblia hebraica sugerisse a guerra, em poucos séculos os seus profetas, como Isaías e Miqueias, elevaram a sua voz a apresentar a paz enquanto ideal. E depois veio Jesus Cristo, o príncipe da Paz.
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