Opinião | “Eu queria ser astronauta, o meu país não deixou …”
Talvez os jovens não tenham perdido o brio. Talvez tenham perdido a vontade de ficar.
Saí de Portugal há vinte anos à procura do retorno que o País não me dava. Voltei muitos anos depois e encontrei uma geração que, apesar de mais qualificada, mais informada e mais livre nas suas escolhas, parece ter deixado de acreditar que o esforço seja, por si só, suficiente para construir uma vida. Esta constatação obriga-me a rever uma ideia que durante muito tempo aceitei quase sem questionar. Talvez o problema não esteja na falta de brio dos jovens, mas na distância crescente entre aquilo que lhes pedimos e aquilo que o País consegue oferecer em troca.
Há pouco tempo, um jovem adulto que conheço, com pouco mais de 30 anos, licenciado, com um mestrado e a trabalhar numa área diferente da sua formação, disse-me uma coisa que me ficou a matutar durante vários dias. Falávamos de trabalho sem grande entusiasmo, como quem descreve uma obrigação necessária para pagar as contas, quando encolheu os ombros e disse que não ia dar a vida por uma empresa que podia despedi-lo sem pestanejar. Não havia revolta nem amargura na voz, apenas uma espécie de cálculo tranquilo, como se aquela conclusão fosse o resultado lógico das regras do jogo. A minha primeira reação foi pensar naquilo que a minha geração pensa tantas vezes nestas ocasiões, que no nosso tempo era diferente e que havia outro sentido de responsabilidade.
Foi precisamente essa reação que me fez parar. Porque, se formos honestos, a minha geração também aprendeu a fazer contas quando percebeu que o esforço não tinha em Portugal o retorno que procurava. Eu próprio saí do País aos 40 anos porque acreditava que noutro lugar poderia ter melhores oportunidades profissionais. Não considerei essa decisão uma desistência, muito menos uma falta de compromisso com Portugal. Considerei-a ambição, iniciativa e vontade de procurar uma vida profissional melhor. Hoje, quando vejo jovens a fazerem exatamente o mesmo, tenho dificuldade em aplicar-lhes uma interpretação diferente.
Cresci a acreditar que o trabalho era mais do que um contrato. Era uma forma de nos definirmos, de mostrarmos aquilo de que éramos capazes e de construirmos alguma coisa que permanecesse depois de nós. Chegava-se cedo, saía-se tarde e aceitava-se o sacrifício porque se acreditava que o esforço teria retorno. Vestir a camisola não era uma expressão irónica, fazia parte da forma como fomos educados. Foi com essa mentalidade que construí a minha carreira e foi também com ela que saí de Portugal à procura das oportunidades profissionais que sentia que o País não tinha para me oferecer.
Hoje percebo que havia nessa forma de pensar uma espécie de contrato implícito. Trabalhávamos mais porque acreditávamos que, em algum momento, esse esforço se transformaria em estabilidade, progressão, reconhecimento e capacidade para construir uma vida. Esse contrato não estava escrito em lado nenhum, mas existia na cabeça de uma geração. Talvez seja precisamente essa confiança que se tenha quebrado. Os jovens que hoje entram no mercado de trabalho cresceram num contexto em que estudar mais nem sempre significa ganhar mais, trabalhar mais nem sempre significa progredir e permanecer numa empresa nem sempre significa construir uma carreira.
Regressei muitos anos depois com uma perspetiva diferente sobre o País e sobre aquilo que significa construir uma carreira. O Portugal a que voltei não é exatamente o Portugal que deixei e os jovens que encontrei também não são os jovens da minha geração. Não vivem para trabalhar e parecem ter uma relação muito mais prudente com as empresas, separando com naturalidade aquilo que........
