Belém, a hora do spin
Até que ponto um Presidente da República, novato no cargo, pode intervir na área de ação do Governo? Perante casos concretos, incómodos para o Executivo, um Presidente maçarico, ainda por cima, a pensar na reeleição, deve puxar as orelhas ao primeiro-ministro? E, au contraire, quais os custos de assobiar para o lado? Pressionado por alguma oposição (o Chega), pela opinião pública e pelos próprios acontecimentos, António José Seguro ficou, subitamente, na barragem de fogo… dos olhares. Todos olham para o Presidente: vai dizer alguma coisa? Vai ficar calado? O que faria Marcelo Rebelo de Sousa? O que faria Mário Soares? O que fez Jorge Sampaio – no caso Armando Vara, também responsável da Administração Interna, como Luís Neves?
O caos nos exames, de que, em meados de agosto, ainda temos estilhaços. A cascata de casos a envolver o MAI. Em ambas as situações, António José Seguro teve o típico discurso de miss, a desejar a paz no mundo: “Que os alunos não sejam prejudicados”; “Que a auditoria produza resultados o mais brevemente possível.” Já agora, que o sol brilhe no verão, que os passarinhos cantem de manhã, que haja saúde. Também nós desejamos isso tudo. E então? O que adiantará que um Presidente da República diga estas coisas?
A António José Seguro colocavam-se duas possibilidades: ou punha o Governo entre a espada e a parede, revisitando, por exemplo, a peça de filigrana política que foi um célebre discurso de Marcelo Rebelo de Sousa, em outubro de 2017, e que provocou a demissão de uma ministra, ou mantinha-se firme ao lado do Governo. O impulso inicial foi o da terceira via: manter-se afastado do fogo. E, depois, no passado fim de semana, quando a pressão dos “olhares” sobre ele se tornava insuportável, enveredou por uma quarta via: escolher uma generalidade, indiretamente relacionada com o MAI, para falar grosso e dominar a........
