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Ser emigrante é chorar no supermercado

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10.07.2026

Uma hora a deambular pelos corredores do supermercado, sem saber muito bem onde está o quê ou se há aqui aquelas coisas que, à força de dez anos emigrado, se tornaram parte do meu quotidiano. Senti-me naquela grande superfície comercial, onde já tinha estado centenas de vezes há muitos anos, como me senti aquando da minha primeira visita a um supermercado, quando emigrei para o Belize: como se tivesse chegado a um país novo e estranho.

A senhora da peixaria, entre conversa e preguiça, já demorava 15 minutos a amanhar e escalar um robalo e eu, que não tinha a certeza de ser completamente justificada a minha raiva, fui-me embora.

É estranha esta sensação. Uma pessoa sai do conforto do seu país, de uma realidade onde tudo lhe sai naturalmente e sem esforço, e passa dez anos no estrangeiro a viver uma sensação constante de estranheza, de desconforto, de alienação que nunca são totalmente ultrapassáveis. Sonha com o regresso ao conforto, mas esquece-se de que dez anos são muita coisa.

Apesar de as memórias de emigrante se cristalizarem no momento em que sai, a realidade que abandona continua caminho e aquilo de que se lembra acaba por desaparecer. Dá sempre para voltar atrás no espaço, mas não dá para voltar atrás no tempo. E o regresso à terra natal parece sempre uma tentativa de ver um bom filme depois de ter visto os dez primeiros minutos e passado os trinta seguintes na casa de banho.

Estive emigrado na Escócia e o meu filho........

© Visão