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Quando a família vem com um código de barras

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23.02.2026

Começo por falar-te do animal mais célebre do momento: o Punch, um filhote de macaco-japonês rejeitado pela mãe num jardim zoológico no Japão, a quem foi entregue um símio de peluche para atenuar os efeitos da rejeição materna e do grupo de macacos que ocupa o mesmo habitat. Os vídeos enternecedores do pequeno Punch, abraçado ao macaco de peluche em busca de afeto, tornaram-se virais entre 18 e 22 de fevereiro nas redes sociais, e comoveram o mundo inteiro. Porém, fiquei perplexa ao deparar-me imediatamente com a campanha da marca sueca que fabrica o referido brinquedo, que, aproveitando um momento da mais pura inocência animal, o transformou num anúncio eficaz para fazer disparar as vendas. A aquisição do peluche aumentou exponencialmente em vários países. Comuniquei à minha filha a minha perplexidade perante esta situação, uma vez que tinha sido ela a mostrar-me os vídeos do Punch, e confesso que me enervei ao tentar explicar-lhe esta exploração económico-emocional: ela não conseguia compreender. Não via qualquer problema no facto da marca aproveitar a situação do macaco órfão para vender mais bonecos. Tive de pensar durante uns momentos para perceber que esta perplexidade talvez fosse geracional por dois motivos: primeiro, porque ela já cresceu a ver vídeos reais e comoventes nas redes sociais; segundo, porque não se apercebe da perversidade da lógica económica quando esta se apropria e explora um acontecimento claramente emocional.

Senti vergonha ao ver o anúncio da marca sueca onde se podia ler: “Às vezes, a família é quem encontramos pelo caminho”. Ora bem, que um macaco bebé “macaquifique” um objeto é uma coisa; que um grupo de seres humanos queira transformar um objeto num membro da família, é algo completamente diferente. Tenho de dizer que considero a publicidade um mercado bem mais obsceno do que a pornografia, por exemplo. Ao menos na pornografia a pessoa sabe ao que vai, que está perante um produto. Já no grande reino da publicidade, que parece ser o mundo inteiro neste momento, as marcas que despertam mais emoções dominam o algoritmo, conquistam o público e cada vez mais parecem preocupadas e conscientes, quando o único objetivo é a faturação.

A minha filha não conseguiu ver maldade na campanha publicitária e eu senti-me por instantes uma daquelas pessoas dispostas a escalpelizar tudo. Só que não. A verdade é que olhamos para as coisas cada vez mais embrutecidos e cegos, consumindo praticamente a todas as horas do dia, sejam objetos, informação ou serviços, sem nos apercebermos de nada. Do que estamos, de facto, cada vez mais distantes é das pessoas, do afeto sem interesse, do amor sem preço (tudo tem um preço? Acredito que sim, mas não monetário). Talvez as emoções humanas nunca tenham estado tão ligadas a produtos: o que nos faz rir, o que nos faz chorar paga-se, diante ou longe dos ecrãs. Sou só eu que acho isto assustador?

Eu tive um macaco de peluche quando era miúda, um macaco sem anúncio, barato, comprado num sítio qualquer, sem marca reconhecível. Era um macaco parvo que enfiava os dedos no próprio nariz e nas orelhas; eu ria-me e era feliz a brincar com ele. Não precisei de um anúncio, ou que me comovessem, para gostar daquele brinquedo.

Talvez o que mais me tenha ficado dos vídeos do Punch, não tenha sido a imagem do pobre macaco agarrado ao peluche, mas a sensação de vergonha. Vergonha por fazermos de tudo matéria de mercado, até a carência mais elementar. Não é apenas a campanha da marca que me inquieta, é a normalidade com que aceitamos que o afeto seja embalado, etiquetado e distribuído como qualquer outro produto. Que a fragilidade de um animal bebé possa ser convertida, sem sobressalto coletivo, numa estratégia de marketing bem-sucedida. Envergonha-me esta voracidade tranquila, esta capacidade de transformar ternura em slogan.

Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela


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