O fim do desconforto como critério educativo
Há decisões que parecem pequenas até ao momento em que percebemos o que tornam possível. A exclusão de Saramago do núcleo obrigatório não é apenas uma escolha curricular. É um sinal. Não porque retire um autor, mas porque redefine uma exigência.
Saramago nunca foi leitura confortável. Nunca foi apenas literatura. Foi sempre interrupção, um momento em que o leitor deixava de atravessar a narrativa e passava a ser atravessado por ela. E talvez seja precisamente isso que hoje se torna inconveniente.
Num sistema orientado para o imediato, para o mensurável e para o funcional, perde espaço tudo aquilo que não se resolve rapidamente. Tudo o que exige tempo, silêncio e permanência.
Ler Saramago não é rápido nem eficiente. Não serve para cumprir. Obriga a parar, a pensar e, sobretudo, a aceitar que pensar tem consequências. Não porque seja proibido, mas porque é cada vez menos exigido.
Quando a escola deixa de tornar obrigatório um autor que ensina a desconfiar do óbvio, não está apenas a reorganizar conteúdos. Está, silenciosamente, a redefinir o tipo de pensamento que considera essencial. Menos inquieto, menos crítico, mais adaptado. Mais capaz de funcionar dentro daquilo que já está definido do que de questionar aquilo que nunca foi realmente escolhido.
E é aqui que a questão deixa de ser literária. Porque isto não é sobre Saramago.
É sobre a forma como gerimos o desconforto numa sociedade que aprendeu a evitá-lo sem ruído. É sobre a forma como, pouco a pouco, vamos afastando tudo aquilo que nos obriga a parar e a olhar com mais atenção para o que somos, para o que aceitamos, para o que repetimos sem pensar.
Há muito tempo que deixámos de precisar de censura explícita. Já não é necessário riscar palavras, proibir livros, interditar vozes. Hoje, o mecanismo é outro. Basta tornar opcional aquilo que deveria ser incontornável. Basta deslocar para a margem aquilo que exige demasiado de quem lê, de quem pensa, de quem sente. E, pouco a pouco, o essencial torna-se acessório, sem conflito, sem resistência, quase sem se dar por isso.
A literatura, e em particular a de Saramago, sempre foi um dos últimos espaços onde essa deslocação era interrompida. Porque não permite uma leitura passiva. Porque não se deixa consumir sem deixar marca.
Porque obriga a perguntas que não cabem em respostas rápidas, nem em critérios de avaliação simples. E talvez seja isso que mais nos falta. Não a capacidade de ler, mas a disponibilidade para sermos afetados pelo que lemos.
Aquilo que transforma nunca é imediato, nem funcional no sentido mais estreito. Exige tempo, presença e a capacidade de não recuar quando algo nos desorganiza. Mas vivemos num tempo que já não recompensa essa relação com o mundo. E habituamo-nos. Habituamo-nos a não parar, a não aprofundar, a não insistir.
Desenvolvemos uma forma de equilíbrio que permite continuar, estudar, trabalhar, produzir, sem sermos interrompidos pelo que não sabemos resolver. Mas esse equilíbrio tem um custo. Porque, ao evitar o desconforto, evitamos também a transformação.
A pergunta que fica não é, por isso, se devemos ou não manter Saramago nos programas. Essa é apenas a superfície.
A pergunta real é mais exigente. Que tipo de pensamento estamos dispostos a exigir? Um que responde ou um que interroga? Um que se adapta ou um que resiste? Um que funciona ou um que compreende? Talvez a resposta esteja menos no nome de um autor e mais naquilo que estamos dispostos a perder sem dar por isso.
Porque nenhuma destas mudanças acontece de forma abrupta. Não há rutura, há acumulação. Pequenas decisões que, isoladamente, parecem irrelevantes, mas que, juntas, redefinem o essencial. Até ao momento em que deixamos de estranhar, de questionar, de sentir falta. E talvez seja esse o sinal mais claro de que algo importante se perdeu. Não quando deixamos de ensinar Saramago. Mas quando deixamos de precisar dele.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.
