Opinião| Viva o Ano do Cavalo, consumir é glorioso!
Os chineses celebraram esta semana a entrada no Ano do Cavalo, um signo associado à vitalidade e portador de boa sorte. Na China continental, em Taiwan e nas Chinatowns da diáspora, a passagem do ano lunar é a festa mais importante. As famílias reúnem-se, as ruas estão engalanadas com lanternas vermelhas, lançam-se petardos e fogo de artifício “para afastar os maus espíritos”, trocam-se prendas, visitam-se os templos, veste-se roupa nova. Todos juntos à volta da mesa, saboreando as melhores comidas. No vasto continente chinês, a quadra proporciona nove dias seguidos de feriado – mais um do que nos últimos dois anos e mais dois do que em 2023. Para os estudantes e os milhões de trabalhadores migrantes oriundos das províncias do interior, as férias são ainda mais longas.
As celebrações do ano novo chinês, conhecidas também como Chun Jie (Festival da Primavera), suscitam sempre “a maior migração anual do mundo”. Entre 2 de fevereiro e 13 de março − anunciou a imprensa −, os comboios transportarão 539 milhões de passageiros. Um número considerado “histórico”, equivalente a 13,5 milhões de passageiros por dia e que representa um aumento de 5% em relação ao ano anterior. No caso dos aviões, o movimento deverá atingir os 95 milhões, outro “recorde”. A maioria, porém, viajará de automóvel, um dos símbolos do desenvolvimento do país. Há apenas 40 anos, a bicicleta era o único meio de transporte privado; hoje, a China é o maior mercado automóvel do planeta e o líder mundial no setor elétrico. No final do ano passado, havia cerca de 44 milhões de veículos elétricos a circular no país – mais 13 milhões do que em 2024. “Número recorde de feriados do Festival da Primavera estimula o aumento de viagens na China”, assinalou o Diário do Povo, órgão central do Partido Comunista Chinês. No próximo 1º de Maio haverá mais cinco dias seguidos de feriado.
Um conhecido arquiteto, Ma Yansong, disse um dia que “o que é tradicional na China é desafiar a tradição”. As celebrações do novo ano não fogem à regra. Muitos chineses das novas gerações, nascidos e criados no tempo das reformas económicas, aproveitam para passar férias no estrangeiro, nomeadamente nos países tropicais do sueste asiático. Outros, em vez de regressarem à terra natal, convidam os pais para irem às suas casas. Esta nova tendência já tem um nome, “Festival da Primavera ao contrário”, e corresponde ao que uma socióloga de Xangai, Zhang Yina, descreveu como “uma busca de descontração, centrada na ideia de fazer o que for mais confortável”.
Para o governo, “impulsionar o consumo” é uma “prioridade”. É isso também o que preconiza o 15º Plano Quinquenal (2026-2030), que a Assembleia Nacional Popular aprovará no próximo mês. De um modo geral, os chineses gostam de poupar e habitualmente poupam muito. No total, as poupanças das famílias, estimadas em mais de 160 biliões de yuan (cerca de 20 biliões de euros), serão mesmo das mais elevadas do mundo. Mas desde a pandemia de Covid-19 estão a gastar cada vez menos. Segundo uma recente sondagem, em 2024, a percentagem de pessoas que preferiam poupar atingiu os 61,4% e apenas 13,6% privilegiavam o investimento. As restantes 24,9% optavam por gastar.
A “pressão deflacionária” é flagrante. Durante vários meses, os preços não pararam de cair. A inflação em 2025 acabou por se situar em 0,8%, abaixo dos 2% previstos pelo governo. A persistente crise no setor imobiliário, com milhões de casas vazias ou inacabadas, também não ajuda. O desemprego entre os jovens mantém-se acima dos 16% − mais do triplo da média nacional. A população, cada vez mais envelhecida, continua a diminuir.
Nos discursos de Xi Jinping, os “desafios” com que a economia chinesa está confrontada são equiparados a “fortes ventanias”, “águas tumultuosas” e “tempestades perigosas” – imagens familiares num país frequentemente assolado por tufões. A conjuntura, no entanto, parece auspiciosa e, em muitos aspetos, a vitalidade associada ao cavalo já se manifestou no Ano da Serpente, que terminou na passada segunda-feira.
Apesar da crescente incerteza internacional, em 2025 a economia chinesa cresceu 5% e o excedente comercial do país chegou quase a 1,2 biliões de dólares, um valor também sem precedentes. O comércio com os EUA diminuiu, mas subiu em muitos outros mercados, sobretudo na Ásia e em África. Mesmo na Ucrânia, as importações da China aumentaram, ultrapassando a Polónia e a Alemanha. No plano geopolítico, a China “é o país que está a marcar mais pontos”, salientou o antigo presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso num fórum financeiro realizado há três semanas em Hong Kong. “Os EUA continuam a ser a mais importante potência global” – afirmou Durão Barroso –, “mas a China está cada vez mais perto”.
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