A vergonha não chega. É preciso mais
Havia um grupo de chat. Havia homens. Havia dicas sobre doses, sobre substâncias, sobre como agir sem acordar a mulher. E havia partilha de vídeos. Como se fosse um passatempo. Como se fosse normal. Como se do outro lado não houvesse uma pessoa, mas um objeto disponível para consumo coletivo.
Não é ficção. Não é um caso isolado. Uma investigação de vários meses da CNN, publicada a 26 de março de 2026 e conduzida pela jornalista Saskya Vandoorne, expôs uma rede global a que chamou “academia de violação”. Grupos onde homens ensinam ativamente outros a drogar as próprias esposas e companheiras, partilham dosagens, substâncias e instruções sobre como não serem apanhados. A jornalista foi mais longe: encontrou pessoalmente um dos membros que se vangloriava online de ter violado a mulher. Ele existia. Tinha nome. Tinha cara. Não era um monstro de ficção científica. Era um homem comum.
Num só site, o Motherless.com, a investigação encontrou mais de vinte mil vídeos de mulheres sedadas ou a dormir, com centenas de milhares de visualizações. Existe uma etiqueta usada pela comunidade para identificar o conteúdo. Chama-se “eyecheck”. São vídeos onde os homens levantam as pálpebras fechadas das mulheres para mostrar que estão inconscientes. Alguns ultrapassam os cinquenta mil visualizações.
Em Portugal, investigações anteriores já tinham revelado grupos com dezenas de milhares de membros dedicados à partilha de imagens íntimas de mulheres sem consentimento. Um em cada setenta homens portugueses estava num só desses grupos, segundo dados apurados........
