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A vergonha não chega. É preciso mais

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tuesday

Havia um grupo de chat. Havia homens. Havia dicas sobre doses, sobre substâncias, sobre como agir sem acordar a mulher. E havia partilha de vídeos. Como se fosse um passatempo. Como se fosse normal. Como se do outro lado não houvesse uma pessoa, mas um objeto disponível para consumo coletivo.

Não é ficção. Não é um caso isolado. Uma investigação de vários meses da CNN, publicada a 26 de março de 2026 e conduzida pela jornalista Saskya Vandoorne, expôs uma rede global a que chamou “academia de violação”. Grupos onde homens ensinam ativamente outros a drogar as próprias esposas e companheiras, partilham dosagens, substâncias e instruções sobre como não serem apanhados. A jornalista foi mais longe: encontrou pessoalmente um dos membros que se vangloriava online de ter violado a mulher. Ele existia. Tinha nome. Tinha cara. Não era um monstro de ficção científica. Era um homem comum.

Num só site, o Motherless.com, a investigação encontrou mais de vinte mil vídeos de mulheres sedadas ou a dormir, com centenas de milhares de visualizações. Existe uma etiqueta usada pela comunidade para identificar o conteúdo. Chama-se “eyecheck”. São vídeos onde os homens levantam as pálpebras fechadas das mulheres para mostrar que estão inconscientes. Alguns ultrapassam os cinquenta mil visualizações.

Em Portugal, investigações anteriores já tinham revelado grupos com dezenas de milhares de membros dedicados à partilha de imagens íntimas de mulheres sem consentimento. Um em cada setenta homens portugueses estava num só desses grupos, segundo dados apurados pelo Público. E dentro desses grupos existe um subtpópico entre os mais ativos. Chama-se “Esposas”.

Lemos isto e ficamos perturbados durante um dia. Depois passamos à frente.

Há um caso que não passa à frente. Gisèle Pelicot, francesa, 72 anos, foi drogada pelo marido durante uma década. Adormecia sem saber porquê. Acordava sem recordar o que tinha acontecido. O que acontecia era violação. Sistemática, organizada, documentada. O marido recrutava desconhecidos na internet, numa sala de chat chamada “Without Her Knowledge”. Convidava-os para casa. Dava instruções sobre as doses, sobre como atuar sem a acordar. Cinquenta e um homens foram identificados e condenados. Mais de setenta passaram por aquela cama. Médicos, reformados, estudantes, um jornalista. Homens de todos os estratos sociais. Gisèle não sabia. Acordava exausta. Via hematomas que não sabia explicar. Ninguém percebeu durante anos.

Em dezembro de 2025, um caso idêntico foi julgado na Alemanha. Fernando S., condenado por ter anestesiado a mulher, documentado as agressões em filme e distribuído os vídeos em grupos de mensagens durante seis anos.

A pergunta que ninguém faz é esta: o que é que estas mulheres sabiam? E se soubessem, o que podiam fazer?

Em Portugal, a violação conjugal é crime desde 2007. O artigo 164.º do Código Penal não distingue o agressor cônjuge do agressor desconhecido. Violar é violar, independentemente do laço civil que une os intervenientes. A lei é clara. O problema é que a lei supõe consciência. Supõe que a vítima sabe que foi violada. Supõe que tem capacidade de denunciar. E supõe que o sistema a ouve quando o faz.

Quando uma mulher é sistematicamente drogada pelo próprio marido, nenhuma dessas condições está garantida.

O que fica, muitas vezes, é o silêncio. Ou a confusão. Ou a vergonha de suspeitar e não ter provas. Ou o medo de não ser acreditada. Em Portugal, em 2025, morreram vinte e cinco pessoas em contexto de violência doméstica, o número mais alto desde 2022. A APAV identificou que 76,4% dos agressores de mulheres são do sexo masculino. Que o cônjuge é o principal agressor. Que a relação de intimidade é o contexto mais frequente. Que mais de oitenta e duas participações por dia chegam à PSP e à GNR.

Oitenta e duas. Por dia.

E ainda assim continuamos a tratar isto como um assunto de fim de semana. Como uma manchete que dura até à próxima.

Há uma questão que as juristas conhecem bem e que raramente entra no debate público: o direito à legítima defesa. O artigo 32.º do Código Penal prevê que não é punível quem praticar um facto ilícito para afastar uma agressão atual e ilícita sobre si próprio. Mas quando a agressão é silenciosa, quando ocorre enquanto a vítima dorme, quando é perpetrada pelo homem com quem partilha a cama e a vida, o direito à defesa torna-se abstrato. Não se pode defender quem não sabe que está a ser atacada.

É aqui que o debate precisa de mudar de sítio.

Não estamos a falar de armar mulheres. Estamos a falar de as informar. De as preparar. De as ensinar, desde novas, que o consentimento não é um detalhe mas um direito absoluto. Que o corpo de cada uma é um território inviolável, incluindo dentro de um casamento. Que existem sinais. Que existem padrões. Que quando algo não parece certo, não são elas que estão erradas.

Nunca foi ensinado nas escolas que um marido pode ser um violador. Nunca se ensinou que drogar a outra pessoa é crime. Nunca se ensinou que há redes globais a partilhar essas agressões como troféus, com etiquetas, com categorias, com audiências. E nunca se ensinou às raparigas que têm direito a saber, a perguntar, a recusar e a sair.

Não é radicalismo. É literacia básica de direitos.

A Gisèle Pelicot disse, quando renunciou ao anonimato e exigiu um julgamento público, que a vergonha tinha de mudar de lado. Tinha razão. A vergonha mudou. Mas a vergonha não chega.

Precisamos que mude também a preparação. Que as escolas ensinem autodefesa, não apenas física, mas jurídica, emocional, relacional. Que as raparigas saibam o que é uma relação de controlo antes de estarem dentro dela. Que as mulheres adultas saibam que têm direito ao seu próprio corpo, mesmo quando casadas. Que o sistema as ouça quando falam. E que, quando não podem falar porque estão a dormir sem saber porquê, alguém faça as perguntas certas à sua volta.

Em 2025, 82 casos por dia chegaram às autoridades portuguesas. São os que chegaram. Os que não chegaram, ninguém sabe contar.

A vergonha mudou de lado. Agora é preciso mudar tudo o resto.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.


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