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Documento 512: a história da maior mentira arqueológica do Brasil

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13.04.2026

Documento 512: a história da maior mentira arqueológica do Brasil

13º15'S, 41º16'OSerra do SincoráParque Nacional da Chapada Diamantina, Mucugê, Bahia

No começo do século 17, um bandeirante chamado Robério Dias, conhecido como Muribeca, foi preso por não revelar ao governo a localização das minas de prata que ele dizia ter encontrado nos rincões da Bahia. Muribeca morreu e, com ele, seu segredo.

Ou, pelo menos, foi assim que a lenda se espalhou. Décadas e décadas se passaram e nada de encontrarem esse Eldorado baiano.

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Até que, em meados do século 18, um manuscrito misterioso revelou sua localização. O documento, no entanto, só veio a público em 1839.

Uma expedição se dirigiu ao local. Algumas das melhores cabeças do recém-fundado Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro se envolveram a fundo. O próprio Dom Pedro 2º acompanhou o caso.

As minas (e a saga para encontrá-las) ficaram tão famosas que inspiraram alguns dos títulos de literatura de aventura mais conhecidos dos séculos 19 e 20. Mas tudo era miragem.

O documento que originou essa corrida era falso. Uma lorota que teve grande importância na construção do passado do Brasil e na exploração do interior do jovem império.

Em 1839, o naturalista Manuel Ferreira Lagos descobriu um manuscrito antigo, feito por bandeirantes no século anterior, em um canto da Livraria Pública da Corte (antecessora da Biblioteca Nacional). Ele levou o documento ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

Intitulado "Relação historica de uma occulta, e grande povoação antiquissima sem moradores", o texto se tornaria mais conhecido como Documento 512. Um nome técnico que o que não tem de romantismo tem de sobra em fonte de mistério e de teorias conspiratórias.

Mas ele, na aparência, não tinha nada de fantasioso. Tanto que, pouco depois, foi publicado na íntegra na revista do IHGB.

Isso porque não se tratava de um relato cheio de criaturas e acontecimentos fantásticos, como aqueles do século 16 que descreviam cidades douradas escondidas na Amazônia, alimentando o mito de Eldorado. Era um texto relativamente sóbrio, sem maravilhas incomuns.

Tudo bem que, já no início do relato, ele descrevia uma montanha brilhante, repleta de cristais e de difícil acesso. Mas no geral o texto podia ser considerado "pé no chão" para os padrões.

Na narrativa, os bandeirantes descobriram um caminho calçado por dentro do monte e chegaram ao que pareciam ser as ruínas de uma antiga cidade. O local estava despovoado. Três arcos "de grande altura" despontavam na entrada.

Como seriam as ruínas

Pelas descrições e o contexto, não se tratava de uma colônia portuguesa ou espanhola abandonada nem de uma mina fora de atividade. A maioria dos complexos mineradores na Bahia estava em atividade no século 18.

Além disso, o texto falava em pórticos, estátuas, templos e inscrições. Isso remetia à Antiguidade clássica da Europa, não aos tempos da colonização ibérica.

O historiador Johnni Langer, em um artigo a respeito na "Revista Brasileira de História", explicou que o manuscrito surgiu em um contexto de efervescência arqueológica. O passado do Mediterrâneo estava em alta.

O texto compara as praças da cidade perdida às dos romanos. Cita estátuas com coroas de louros, grandes pórticos e moedas de ouro, além de mencionar cadeias montanhosas como os Alpes e os Pirineus e o Rio Nilo.

A identificação e a confirmação das ruínas romanas de Herculano (1738) e Pompeia (1768) tornaram essas antigas cidades famosas em muitas partes do mundo. O autor somou a essas referências tradições folclóricas dos relatos de exploradores do século 16, como a montanha reluzente.

Isso não indica necessariamente que o documento era uma farsa. Apenas reforça que o autor estava a par das grandes descobertas arqueológicas na Itália do século 18.

O impacto da descoberta do manuscrito

Os membros do IHGB, fundado apenas alguns meses antes, no fim de 1838, se maravilharam com o relato. Afinal, ele não falava de povos rudimentares, mas de vestígios de uma civilização sofisticada.

Para um país que havia conquistado a independência apenas 16 anos antes, isso era visto como uma dádiva. O Brasil poderia entrar no seleto clube dos Estados com um passado rico o suficiente para moldar uma invejável identidade nacional.

O IHGB decidiu investir em encontrar essas ruínas. Januário Barbosa, cônego responsável pela publicação do manuscrito na revista da instituição, mencionou, como exemplo, as grandiosas descobertas arqueológicas feitas em locais muito mais próximos do que o mundo romano.

Ora, se México e Peru podiam ter ruínas espetaculares, por que o Brasil não? Era o que argumentava Barbosa.

Em 1840, dois pesquisadores da Bahia enviaram novos dados, que esquentaram a busca. A investigação deles os colocou em contato com histórias que se contavam no boca a boca na região.

Falava-se em cidades encantadas e de uma cidade submersa, coberta de esmeraldas, no Médio São Francisco. Pouco depois, em 1844, quando a extração de diamantes começou na Bahia, esse folclore já estava bem consolidado.

Segundo Langer, os relatos da população sobre lugares fantásticos, típicos da América Latina colonial, se misturaram às descrições sofisticadas do manuscrito. "O mito popular foi reinterpretado pelo imaginário erudito, reforçando as convicções vigentes sobre um passado grandioso prestes a ser revelado", escreveu.

Ainda em 1840, o instituto escalou outro cônego, Benigno José de Carvalho e Cunha, para viajar até a Bahia e encontrar a cidade perdida. Seria a missão da vida dele.

Benigno encarava o manuscrito como um diário de campo, narrado fielmente de acordo com o que o autor via pelo caminho. Era um texto em geral comum, típico dos relatos de bandeirantes do passado, mas que de repente trazia elementos estranhos àquele universo.

Do nada, o autor mencionava supostas inscrições: "Como lembrariam a mineiros os caracteres gregos ou runos?".

Mas a geografia era vaga. A única pista era um riacho em frente à cidade perdida. Os supostos descobridores teriam descido esse rio e, em três dias, chegaram ao Rio Una, na Bacia do Paraguassu.

Com base nesses parcos dados, Benigno supôs que a cidade perdida ficava na Serra do Sincorá, na Chapada Diamantina. Então, ele zarpou para Salvador.

Na capital baiana, o cônego fez estudos da hidrografia da região. Calculou que levaria duas semanas até chegar à suposta localização da cidade perdida.

Mas ele viajou somente até Valença, ainda no litoral, no começo de 1841. Lá, fortes chuvas impediram a continuação do trajeto, e Benigno aproveitou para colher depoimentos de antigos moradores - o que reforçou sua hipótese de que a cidade perdida ficava na Serra do Sincorá.

A Bahia, naquela época, ainda era bastante inexplorada. Somente a costa estava bem mapeada. Florestas, matas, rios, montanhas e sertões precisavam ser registrados, então a empreitada de Benigno teria, de um jeito ou de outro, benefícios práticos.

A importância estratégica da missão

A empolgação do IHGB e a importância dada à expedição têm razão de ser. Não só o Brasil era uma jovem nação independente, como Dom Pedro 2º, então com 15 anos, foi coroado naquele mesmo ano.

O novo imperador estava entretido na construção de uma identidade nacional, no desenvolvimento de uma política cultural e no avanço da ciência. O Brasil buscava uma "interiorização da civilização": dominar o espaço dito selvagem e propagar ideais civis e religiosos.

Por isso, Pedro 2º se entusiasmou com a busca pela cidade perdida. Nada como encontrar, no coração do império e ainda no princípio de seu reinado, uma civilização que poderia fazer frente aos outros grandes povos da Antiguidade.

Benigno recomeçou a viagem e chegou à região da cidade perdida. Passou três anos investigando, e nesse período as expectativas a respeito de um passado grandioso do Brasil Imperial só cresceram.

"A descoberta da cidade perdida refletiria diretamente nesta imagem do Brasil: uma nação em progresso, portadora de vestígios arqueológicos, conhecimentos científicos, ideais e costumes elevados", escreveu Langer, e complementou:

A própria imagem de D. Pedro 2º foi relacionada, mecenas culto que patrocinou o possível desvendar da maior glória pretendida nesse período

Além disso, a descoberta das ruínas fortaleceria o rompimento com Portugal. Elas comprovariam que outras civilizações semelhantes às europeias estiveram aqui antes.

Além da construção simbólica da nação, o que estava em jogo era também algo mais palpável. A interiorização permitia um aumento do controle político e um alargamento das fronteiras econômicas, sob a forma de descoberta de minérios, ampliação da agricultura ou exploração de recursos naturais.

O cônego, obstinado, seguia na missão. Mas toda a importância dada a ela não se materializou em recursos. Ele lamentava, em seus relatórios, as privações e dificuldades para abrir estradas e fazer queimadas.

Sua saúde piorava com o passar do tempo. Febre e malária eram companhias recorrentes.

Após anos de buscas, os acadêmicos no Rio de Janeiro ficaram mais impacientes. Benigno não apresentara nada concreto.

Em 1846, ele perdeu o financiamento. Mas continuou em campo por mais dois anos, trabalhando por conta própria.

Boatos diziam que o cônego enlouquecera. Em 1848, ele voltou, frustrado, a Salvador. Morreu no ano seguinte.

As expectativas de encontrar a grande civilização perdida na Bahia também morreram. Naquele mesmo ano, críticas ao documento e à expedição começaram a aparecer na imprensa.

Agremiações de Salvador afirmavam que o manuscrito era uma fraude. Acadêmicos argumentaram que o texto era somente uma alegoria das minas de diamante da região e que não era para ser interpretado ao pé da letra.

Porém, segundo Langer, um documento velho e rasgado não explicaria, sozinho, a longevidade do mito. O interesse acadêmico surgiu em 1839, com a descoberta do manuscrito, mas sua legitimação só ocorreu quando os relatos dos pesquisadores da Bahia e a pesquisa de campo de Benigno, nos anos seguintes, misturaram os relatos orais da cultura popular sobre cidades encantadas à estrutura narrativa da cultura erudita encontrada no texto.

Mas quem escreveu o relato?

Por mais que o governo e instituições acadêmicas tenham constatado que a cidade perdida era balela, outro mistério persistiu por um bom tempo. Até meados do século 20, a identidade do autor permaneceu desconhecida.

Somente a partir do trabalho do historiador Pedro Calmon e do pesquisador Hermann Kruse, a partir dos anos 1940, soubemos quem foi, possivelmente, o homem que criou a maior fábula arqueológica do Brasil.

Trata-se de João da Silva Guimarães, um bandeirante que explorou os desconhecidos sertões da Bahia entre 1752 e 53. Ele teria encontrado as afamadas minas de prata de Muribeca justamente na região dos rios Paraguaçu e Una, como deduziu, mais tarde, o cônego Benigno.

Porém, Guimarães quebrou a cara quando os exames realizados na Casa da Moeda mostraram que os minérios que ele tinha apresentado não tinham valor algum. Frustrado, ele passou a viver com indígenas e sumiu do mapa em 1764.

O Documento 512 está preservado nos arquivos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Por mais que seu conteúdo seja fantasioso, ele é um importante registro para entender o Brasil do século 18 (quando foi escrito) e 19 (quando foi descoberto).

A lenda de Muribeca teve grande impacto na produção literária. Inspirou "As Minas de Prata" (1865), de José de Alencar. Indiretamente, o manuscrito pode também ter inspirado o britânico Rider Haggard a escrever o clássico "As Minas do Rei Salomão", em 1886.

Sabe-se que "o único mapa conhecido de uma cidade perdida no centro do Brasil", como descreve a Biblioteca Nacional, teve grande impacto na carreira de Percy Fawcett. Esse explorador inglês encontrou fama e desgraça no Brasil.

O manuscrito ajudou a convencê-lo de que existia uma civilização oculta no país. Mas ela estaria em Mato Grosso, e não na Bahia. Ele desapareceu na Serra do Roncador em 1925, à procura de sua própria cidade perdida.

É um mistério que segue sem solução. Escrevi a respeito disso em um texto em que mencionei o Documento 512 e prometi que voltaria a falar dele aqui na coluna. Dito e feito.

As aventuras de Fawcett inspiraram um amigo pessoal seu, Arthur Conan Doyle, a escrever "O Mundo Perdido", em 1912. A carreira de Fawcett também teria servido de base para a criação de Indiana Jones.

No fim, o passado brasileiro pode não ter estátuas romanas, inscrições rúnicas nem colunas gregas, como desejavam muitos intelectuais dos tempos do Império. Mas a invenção desse passado em um texto fantasioso acabou, sem querer, impactando a literatura dos países ricos que nossas elites queriam (e querem) emular.

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Índice de histórias da coluna Terra à Vista:

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