menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Capital da França no Congo: o papel pouco lembrado da África na 2ª Guerra

8 0
previous day

Capital da França no Congo: o papel pouco lembrado da África na 2ª Guerra

4º17'S, 15º15'LCasa De GaulleBrazzaville, Brazzaville, Congo

Para muito além dos protagonistas, a Segunda Guerra Mundial foi realmente "mundial". Ela afetou praticamente todos os cantos do planeta. Mais de cem países tiveram participação direta.

Muito disso se deve ao fato de que alguns dos principais envolvidos eram impérios coloniais. É o caso da França.

Mauro CezarCorinthians sai vaiado e xingado pelos torcedores

Corinthians sai vaiado e xingado pelos torcedores

Milly LacombeContra o Fla, Santos faz o que pode com o que tem

Contra o Fla, Santos faz o que pode com o que tem

Juca KfouriFlamengo vira com brilho e deixa a crise em Bragança

Flamengo vira com brilho e deixa a crise em Bragança

SakamotoNão é a Porsche que mata. É a certeza de impunidade

Não é a Porsche que mata. É a certeza de impunidade

Em 1939, o país vivia o auge de seu domínio territorial, controlando 13,5 milhões de quilômetros quadrados, a maioria na África e na Ásia. Em 1940, porém, a França estava de joelhos.

A ameaça nazista só crescia conforme a Alemanha conquistava a Tchecoslováquia, Polônia, Dinamarca, Noruega, Bélgica e Países Baixos no espaço de um ano. Havia a esperança de que os Estados Unidos entrassem no conflito para ajudar a frear Hitler.

Em vão. Em 14 de junho de 1940, os 700 mil habitantes que restavam em Paris (2 milhões já tinham fugido) acordaram com alto-falantes alemães anunciando o toque de recolher.

A bandeira da suástica foi pendurada no Arco do Triunfo. Soldados nazistas desfilaram nos Champs-Elysées "numa imitação deliberada da marcha da vitória francesa em novembro de 1918", escreveu o historiador britânico Martin Gilbert em "A Segunda Guerra Mundial".

A Batalha da França durou um mês e meio e envolveu mais de 3 milhões de pessoas em cada lado do front. Só que não foram apenas os franceses que lutaram para tentar evitar a queda da França.

Justamente por ser um império colonial, a França contou com cerca de 40 mil africanos na luta. É uma história pouco lembrada.

Os alemães cometeram crimes de guerra ao executar 3 mil desses soldados que haviam se rendido, após o fim da batalha. A propaganda nazista zombava dos prisioneiros africanos e ridicularizava o alto comando militar francês por usar homens negros em seus batalhões.

A França Livre (na África)

A França metropolitana estava perdida. Restava à resistência francesa, liderada por Charles De Gaulle, buscar refúgio fora da Europa continental.

O aliado Reino Unido era uma opção. Mas, pouco mais de dois meses depois, De Gaulle se organizou em dois de seus vastos territórios, Camarões e África Equatorial Francesa (AEF), federação que correspondia aos atuais Chade, Congo, Gabão e República Centro-Africana.

Foi essencial. "A África Francesa Livre conferiu credibilidade, legitimidade, mão de obra e recursos financeiros imediatos ao movimento de De Gaulle em seus primórdios, quando ele era mais frágil", escreveu o historiador canadense Eric Jennings em "Free French Africa in World War II" (África Francesa Livre na Segunda Guerra Mundial", sem edição brasileira).

A história mais conhecida diz que a resistência francesa estava sediada no Reino Unido e ponto final. Mas não foi bem assim, segundo Jennings.

Jacques Sustelle, antropólogo e uma importante liderança política da época, escreveu em suas memórias: "Com que fúria os antigaullistas, tanto de esquerda quanto de direita, os comunistas e os vichyitas, propagam incessantemente o mito de uma Resistência em Londres. A ambos os lados, respondo com a verdade: a França Livre era africana".

Após a conquista nazista, a França se dividiu em duas. Uma era a França de Vichy, colaboracionista, sediada em Vichy, cidade no centro do país.

A outra era a França Livre, exilada, que manteve o que restou do império. Uma vastidão que ia da fronteira do Chade com a Líbia até o Rio Congo, além dos pequenos territórios que os franceses ainda mantinham no Pacífico Sul e no Índico (as importantes colônias do Sudeste Asiático tinham ido para o beleléu com a invasão japonesa, também em 1940).

Sem o apoio dessas possessões coloniais, que credibilidade, que reconhecimento internacional, que contrapeso à legitimidade de Vichy um general rebelde em Londres poderia ter conseguido? Eric Jennings

Por isso, ao longo de quase toda a guerra, a França Livre foi africana.

As estimativas mais conservadoras falam que 27 mil homens, de Camarões e da AEF, lutaram pela causa francesa. Mas, como frisa Jennings, se a França Livre era africana, a África não era livre.

Alguns se voluntariaram a pegar em armas. Outros foram obrigados.

É uma mancha na ideia que se propagou da França Livre, um movimento que pregava compromisso e sacrifício pessoais e patriotismo. Justificava-se isso com o argumento de enfrentar um mal maior.

Porém, foi graças à África que a França Livre conseguiu ser mais do que um mero movimento. A partir do Chade, ela pôde atacar, em 1941, a Líbia tomada por Benito Mussolini, por exemplo.

O continente deu territórios, população e legitimidade a De Gaulle. O general reconheceu isso. Escreveu, em 1940, que, "nas vastas extensões da África, a França poderia reconstruir seu exército e sua soberania".

África pela França e África contra a França

Com Paris tomada pelos nazistas e o país derrotado e dividido, a França Livre precisava de uma capital nova. De preferência, longe da Europa.

Durante dois anos e meio, a pequena cidade de Brazzaville, na margem norte do Rio Congo, foi a capital temporária do que se dizia ser o governo da França (hoje, ela é capital do Congo). Foi a partir dessa base que os franceses puderam montar um exército, equipá-lo e enviá-lo ao Saara para participar da campanha dos Aliados no norte da África.

Foi em Brazzaville que De Gaulle assinou os primeiros documentos que organizaram a França Livre. Uma portaria criou o Conselho de Defesa do Império, o embrião de um governo, em 27 de outubro de 1940, e a Ordem da Libertação foi instituída em 16 de novembro. A Rádio Brazzaville tornou-se a emissora nacional da França Livre Site da Fundação Charles De Gaulle

Mas a maior parte das possessões francesas na África não ficou do lado de Paris quando estourou a guerra. A federação da África Ocidental Francesa (AOF), que correspondia aos atuais Benim, Burkina Faso, Costa do Marfim, Guiné, Mali, Mauritânia, Níger e Senegal, pendeu para a França de Vichy.

Apesar de pouco povoada, por ocupar áreas desérticas e semidesérticas, a AOF era quase duas vezes maior que a AEF, com 4,7 milhões de quilômetros quadrados. Isso certamente foi um baque para o moral francês.

Uma série de motivos levou a essa ruptura, além das animosidades coloniais. Os contornos geográficos e a localização da AOF deram a ela relativa autonomia, e a autoridade era mais centralizada. A maior proximidade com os territórios franceses do norte (Argélia, Marrocos e Tunísia), os primeiros a capitularem, também não ajudou.

Já a AEF e Camarões eram territórios mais frágeis, que dependiam de vizinhos como o Congo Belga e o Sudão e a Nigéria (possessões britânicas). Com isso, o discurso da França Livre, por mais que ela representasse o império colonizador, conseguiu um pouco mais de simpatia.

Uma desastrosa tentativa de reconquistar Dakar, no Senegal, em setembro de 1940, ditou os rumos. Transformada em capital africana de Vichy, a cidade foi palco de outro fiasco militar francês.

Após a derrota, o número de alistamentos voluntários desabou. Nos dois anos seguintes, o esforço da França Livre dependeria em grande parte de súditos coloniais.

Sem eles, De Gaulle continuaria sendo o que ele foi em junho e julho de 1940: "o líder de um movimento rebelde e sem território", segundo Jennings. O general repetia, desesperado, ao longo daquelas semanas:

Dêem alguma terra, alguma terra que seja França, em qualquer lugar, uma base francesa para começar

As Novas Hébridas, nome colonial de Vanuatu, responderam ao chamado e se ofereceram para abrigar a França Livre. Mas, vamos combinar, esse minúsculo arquipélago na Melanésia não era lá o QG dos sonhos para uma guerra que De Gaulle travava na Europa e na África.

Em vez das Novas Hébridas, a França Livre se estabeleceu em outras colônias: Camarões e os territórios da AEF (Chade, Médio-Congo, Gabão e Ubangui-Chari). Menos organizados e mais longe do mar, eles forneceriam o essencial para o movimento criar força.

A situação em Camarões e no Congo

Até a Primeira Guerra Mundial, Camarões foi uma possessão alemã. Com o fim do conflito, franceses e britânicos repartiram o território.

Os temores de que a vitória nazista na França ganharia simpatizantes em Camarões se concretizaram. Pessoas comemoraram na capital, Iaundé.

Em agosto de 1940, o capitão Philippe Leclerc (mais tarde um dos grandes generais franceses da guerra), sob ordens de De Gaulle, derrubou o governo colonial pró-Vichy e estabeleceu a lei marcial. Enquanto isso, uma "liga patriótica pela liberdade e honra" ganhava força no Congo, a fim de atrair a população para a causa gaullista.

Brazzaville não havia perdido a conexão com o mundo exterior, o que teve impactos. Veículos de comunicação americanos e belgas levavam à cidade notícias da guerra.

No lado oposto do Rio Congo, o cônsul britânico em Leopoldville, no Congo Belga (atual Kinshasa, na República Democrática do Congo), fez um discurso no rádio para os habitantes de Brazzaville. Dizia que se o Congo Francês honrasse o compromisso com a aliança com o Reino Unido, o comércio seria retomado.

De Gaulle pode ter perdido a maior parte da África, mas conseguiu se agarrar a Camarões e ao Congo (e ao resto da AEF) graças a essa mistura de oportunismo geopolítico, estratégia militar e isolamento geográfico. Foi um respiro.

O membro da resistência Henri Laurentie escreveu que "o império, inicialmente limitado às poucas colônias gaullistas, assegurou à França uma expressão política, apesar do eclipse causado por sua derrota e capitulação". Brazzaville deu à França Livre uma sensação de legalidade, em oposição à ilegalidade de Vichy.

A África Livre Francesa estreitou os laços econômicos com as colônias britânicas, especialmente a Nigéria, o que possibilitou uma reação. A partir do Congo, os franceses montaram uma máquina militar eficaz.

Foi na África que a França Livre imprimiu dinheiro, emitiu decretos, estabeleceu fundamentos institucionais, arrecadou impostos e recursos naturais e governou seus súditos Eric Jennings

Para ele, a França Livre, se ficasse em Londres, constituiria um movimento, talvez um regime, mas não um governo.Segundo o historiador russo Vadim Erlikman, cerca de 22 mil africanos perderam a vida lutando na guerra. Soldados africanos capturados após a derrota na Batalha da França foram enviados a campos de prisioneiros que tinham como guardas soldados alemães e, depois, franceses de Vichy.

Ainda assim, pouco dessa história é lembrada. Brazzaville tem alguns remanescentes da época, obras modernistas do arquiteto Roger Erell: a Basílica de Santana do Congo e a Casa De Gaulle, que abrigou o general naqueles anos de França Livre e depois virou residência oficial do embaixador francês no Congo.

Mas o reconhecimento pelo sacrifício (voluntário ou forçado) de congoleses, camaroneses e outras nacionalidades é mínimo. Somente em 2023 o presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que seu país presentearia Brazzaville com um memorial em honra daqueles que morreram pela causa francesa.

Eles não fizeram pouco. Em agosto de 1944, dois meses após o Dia D, um outro desembarque dos Aliados chegou à costa do país. Ao lado de britânicos, americanos e canadenses, soldados camaroneses, argelinos, senegaleses, tunisianos, marfinenses, guineanos e de outras partes da África liberaram Marselha e o sul da França.

Se você gosta dos temas e textos que trago aqui no Terra à Vista, assine minha newsletter, com assuntos históricos de um jeito leve e surpreendente. Nos vemos lá!

Índice de histórias da coluna Terra à Vista:

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O autor da mensagem, e não o UOL, é o responsável pelo comentário. Leia as Regras de Uso do UOL.

Derrota, mais uma, do Corinthians, derruba lenda da 'torcida que não vaia'

Bahia reclama da arbitragem contra Palmeiras: 'Nos roubaram dentro de casa'

Palmeiras vence com estrela de quem quer ser campeão e corrige chaga de 25

Dorival Júnior é demitido do Corinthians após derrota para o Internacional

Palmeiras arranca vitória contra o Bahia no fim e abre ainda mais na ponta


© UOL