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Quando é que um hambúrguer ou um coquetel passaram a custar R$ 150?

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26.02.2026

Quando é que um hambúrguer ou um coquetel passaram a custar R$ 150?

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A conta do restaurante ou do bar dá R$ 150, e você lembra que não pediu nada além de um hambúrguer com refrigerante e batatas ou apenas um coquetel e uma água com gás.

Sim, chegamos à era em que qualquer saída para comer ou beber em uma grande cidade como São Paulo, Rio de Janeiro ou Nova York pode debitar um valor de três dígitos da nossa conta bancária sem qualquer esforço.

Claro que nos habituamos ao fato de que a alimentação fora do lar, como o setor é conhecido, atingiu novas fasquias recentemente, ficando cada vez mais difícil frequentá-los com a mesma frequência de antes.

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Mas falo agora de uma normalização de preços excessivos. De uma constatação de que alguns itens dos menus por aí ficaram abruptamente mais caros, quase sem que pudéssemos vislumbrar que a onda viria e que tomaríamos um caldo daqueles na hora de de pedir a conta.

São old fashioned, martinis e coquetéis autorais que custam R$ 139. São hambúrgueres de R$ 118, ou até farofas de R$ 72(!) em alguns restaurantes por aí. Claro, sempre foi possível comer caro. E sempre foi possível, com alguma engenhosidade, comer barato.

O que tem acontecido é que a segunda constatação tem se tornado raridade. Nos wine bars descolados onde nos obrigam a sentar em bancos de plástico na rua; nas hamburguerias de garagem; nos bares escondidos depois dos frigoríficos no fundo de uma cozinha.

Quando é que ficou normal pagar por três itens de um lugar 'descolado' o valor que se pagava para comer num restaurante mais chique onde íamos uma vez por ano fazer uma comemoração especial? (Acho que foi mesmo momento em que sair com uma sacola do supermercado passou a nos custar duas notas de R$ 100).

Claro, a inflação é a culpada mais óbvia (todos a sentimos!), aí acrescida a custos recorrentes para manter restaurantes e bares, que também aumentaram: energia, aluguéis, valores operacionais, equipes. A verdade é que os estabelecimentos ficaram encurralados entre manter os preços e perder dinheiro ou aumentá-los e perder clientes.

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Do ponto de vista interno do setor, a percepção não é a de que os preços estão agora muito altos. É a de que antes estavam muito baixos. Tentou-se, dizem os donos de restaurantes, segurar o quanto se podia. Mas era uma ferida que não era possível mais estancar.

Nessa sangria desatada, entretanto, há quem pegue carona pelo excesso: alguns pratos e drinques ficaram exageradamente caros. É difícil de justificar ao cliente como uma dose de uísque XX anos com vermute, angostura e salmoura de azeitona possa custar quase 10% de um salário mínimo, ainda que envolva o talento de bartenders premiados, um serviço bem feito e um "ambiente acolhedor".

O que se nota, por parte dos clientes, é um susto, uma surpresa — quase sempre desagradável. Pede-se algo simples ou pouca coisa, na ideia de que se vai gastar menos.

A conta chega e a sensação amarga toma a boca, por melhor que tenham sido os sabores provados logo antes. São R$ 200, R$ 300, R$ 400, e ninguém exagerou, ninguém saiu do restaurante passando mal de tanto comer.

De acordo com um levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT), algumas cidades brasileiras tiveram um aumento de quase 10% em 2025 em relação ao ano interior no preço de uma refeição completa. Na capital paulista o aumento foi de 4,8%, em relação a 2024.

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Isso, claro, não tem relação direta com itens menos "básicos", mas serve como amostra de que a comida ficou mais cara para onde quer que se vá. Com os valores a subirem mais, é difícil prever quando atingiremos um patamar de

Com os valores a subir de forma constante, é difícil prever quando atingiremos um patamar de estabilização — se é que ele virá. O mercado ajusta, a oferta encontra a procura. Mas há um limite invisível que começa a ser testado.

Porque uma coisa é entender que os custos aumentaram. Outra é justificar que qualquer saída banal (um hambúrguer, um drinque, uma porção para dividir) passe a custar o equivalente a uma pequena celebração.

Penso nos efeitos que a mudança (não só econômica, mas também cultural) pode ter. Se sair para comer deixa de ser um hábito possível e passa a ser um cálculo permanente de custos, algo se perde no caminho: o lugar do bar e do restaurante como extensão da vida cotidiana.

A alta gastronomia sempre foi cara — e vai continuar sendo, nós sabemos. Mas quando o casual assume os códigos de preço do excepcional, vivemos uma distorção.

Talvez o setor esteja certo e os preços antes estavam artificialmente comprimidos ou essa seja apenas a correção inevitável de anos de margens apertadas. Mas no fim, vai surgir sempre a mesma velha pergunta: quem é que estará disposto a pagar a conta?

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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