Banana manipuladora e morango traído: por que só tem frutas de IA no feed
Banana manipuladora e morango traído: por que só tem frutas de IA no feed
Se você faz scrolling em redes sociais de qualquer tipo, já deve ter cruzado com eles: os alimentos antropomorfizados que estão em diversos vídeos virais de plataformas como Reels (Instagram), TikTok e outras tantas.
Eles dão dicas de saúde, falam de conflitos de vida, estão emocionalmente abalados diante de situações extremas. São homens-banana com atitude de malandro, senhoras-brócolis com sintomas de menopausa e uma mãe-espaguete com seus dois filhos chorando por ter sido deixada pelo marido.
A primeira vez que vi, um amigo tinha me mandado um vídeo curto até interessante sobre o caminho da gordura no nosso corpo — ou melhor, no corpo de uma pera, se não me engano, que absurdamente tinha um sistema digestivo parecido com o de um ser humano.
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Lembro que na época achei o vídeo de alguma forma "fofo": trazia um conteúdo explicado de forma bem didática, de uma forma quase infantil (traços muito parecidos com os dos personagens do universo Disney/Pixar), usando a tal "mulher-fruta" para engajar.
Mas a partir daí, parece que meu algoritmo entrou numa vertente meio "dark web": de vídeos de conteúdos para informar, os tais alimentos humanizados passavam, a cada semana, a viver situações mais e mais absurdas. Minidramas que deixariam qualquer novelão mexicano parecendo filme de arte.
Uma banana que manipulava emocionalmente um kiwi em uma relação abertamente tóxica, uma família de tangerinas que entra em colapso, gémeos-limão disputam popularidade, sempre tudo em narrativas rápidas, caóticas e muitas vezes problemáticas.
Os vídeos são gerados por IA, aproveitando-se da popularização de geradores fáceis como Runway ML, Pika Labs e até o CapCut com IA integrada, que qualquer pessoa consegue criar os personagens animados em poucos minutos.
E o que passou de situações banais e quase idiotas — como serem punidos por soltar gases — escalou para comportamentos bizarros e grotescos, como violência sexual, abuso familiar e até serem perseguidos, triturados ou fervidos vivas.
Um dos mais populares, FruitvilleGossip, tem capítulos com milhares de visualizações de situações que acontecem em contexto de justiça, no melhor estilo pastelão das séries de tribunais que viralizam nas plataformas de streaming: traições, paternidades questionadas etc.
Em algumas, personagens femininas que traem parceiros são expostas publicamente e castigadas com agressões, insultos e até cenas extremas envolvendo os "bebês-fruta".
Esses microdramas feitos com inteligência artificial viraram uma febre porque apostam em narrativas curtas, caóticas e muitas vezes desconfortáveis, com humilhações, conflitos familiares e abuso físico explícito. Não é só absurdo: é deliberadamente excessivo.
As frutas (e outros alimentos) entram nesse caldeirão porque aparentam certa neutralidade: representam coisas que conhecemos, de que gostamos, e sobre as quais não temos muitas reações negativas.
Também são reconhecíveis, coloridas, universais. Funcionam bem visualmente, especialmente no estilo saturado e polido dessas IAs, além de mirar em um universo quase infantil, o que torna o contraste com os temas pesados ainda mais chocante.
Assim, esses vídeos escapam (ou tentam escapar) de certos limites morais e de moderação. Uma cena violenta com humanos pode ser denunciada; com frutas, ela parece "brincadeira".
O deslocamento, entretanto, cria uma camada de distanciamento que permite exagerar sem consequência imediata. São vídeos feitos para prender, sem muito contexto, já colocam o "espectador" no meio do conflito, escalam rápido e terminam em cliffhanger (que é quando a história termina num momento de máxima tensão ou suspense, sem resolução, justamente para fazer você querer continuar).
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São emoções comprimidas em menos de um minuto: traição, vergonha, vingança. O cérebro responde e o dedo desliza para o próximo. E depois o próximo, como numa novela superacelerada e quase sem final (muito menos feliz).
No fundo, o sucesso desse conteúdo diz muito sobre o poder que a comida tem de engajar: coisa que campanhas publicitárias, grifes da moda e tantas outras áreas já aprenderam a usar. Mas aqui, falam menos sobre frutas e mais sobre o momento das redes.
Nesse caso, os alimentos aparecem nesses vídeos com uma frequência quase padronizada; e não por acaso. Há uma lógica visual e narrativa por trás da escolha.
A banana, com sua forma expressiva, é quase "humana" e fácil de animar. O kiwi oferece textura e contraste fortes na tela. Limão e laranja funcionam pelas cores vibrantes e pelas associações emocionais imediatas: ácido, doce, conflito.
Já o morango costuma surgir em histórias mais "sensíveis", quase românticas, enquanto uvas e tomates resolvem cenas coletivas: famílias, grupos, multidões. Não é aleatório. São alimentos visualmente eficientes para a IA e úteis para contar histórias rápidas.
No fundo, o fenômeno diz menos sobre comida e mais sobre o estado atual da internet. Como apontam análises recentes de publicações como o The New York Times e a Wired, estamos diante de uma combinação bastante clara: produção massiva e automatizada, uma economia da atenção levada ao limite e conteúdos cada vez mais absurdos como estratégia para manter o engajamento.
Os vídeos de frutas geradas por IA não surgiram como uma tendência criativa espontânea, mas como produto de um sistema. Ferramentas acessíveis, algoritmos famintos por retenção e uma estética baseada no excesso emocional.
A comida, que é simples, universal, apelativa, vira apenas o rosto (nesse caso literalmente) mais eficiente dessa lógica. E, no fim, fica a sensação curiosa de pensar que as "mulheres-frutas" dos programas de auditório dos anos 2000 parecem quase ingênuas diante das frutas quase humanas que hoje protagonizam esse bizarro novo mundo digital.
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