O ano mais interrompido da década
O ano mais interrompido da década
Antes de mais nada, uma premissa clara: este não é um texto contra feriados, direitos trabalhistas ou escolhas individuais. O calendário brasileiro é o que é, fruto da nossa história, da nossa cultura e das nossas leis. Ele não está em debate aqui. O que está em debate é outra coisa: como liderar bem quando o tempo é mais fragmentado.
Carnaval em fevereiro. Copa do Mundo em junho. Eleições em outubro. Pelo menos dez feriados nacionais em dias úteis, fora os pontos facultativos, os feriados municipais e as pontes que todo brasileiro já calcula mentalmente antes mesmo de abrir a agenda. Se você lidera pessoas e olha para o calendário de 2026 com um aperto no estômago, eu entendo. O aperto faz sentido.
Não é exagero dizer que este será um dos anos mais fragmentados da década. O número de semanas completas de trabalho é significativamente menor do que em economias com as quais o Brasil compete diretamente. A China, por exemplo, concentra suas pausas em dois grandes blocos e mantém o restante do ano praticamente contínuo. Os Estados Unidos têm menos da metade dos nossos feriados nacionais. Isso não é julgamento de valor. É uma constatação objetiva de competitividade. Cada semana interrompida tem custo de produção, de ritmo comercial, de foco coletivo.
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Mas ficar apenas na reclamação não resolve.
O calendário é dado. Ele não vai mudar por decisão de nenhum líder, de nenhum conselho. As datas estão postas, as pausas estão marcadas e o jogo precisa ser jogado com as regras que existem, não com as que gostaríamos de ter. A pergunta relevante, então, não é se o calendário atrapalha. Ele atrapalha. A pergunta é: dado que atrapalha, o que separa quem entrega de quem se perde?
Basta olhar para setores que operam 365 dias por ano. Varejo, alimentação, postos de combustível, saúde. Para essas organizações, feriado não é pausa. É pico. Natal, Ano Novo, Carnaval, Dia das Crianças. Enquanto muitos setores desaceleram, esses times estão em campo. E a pergunta que seus líderes se fazem nessas épocas não é se o calendário é justo. É se a gestão está preparada para ele.
Essa distinção importa.
Uma pesquisa recente da Gallup mostra que apenas 32% dos profissionais no mundo estão realmente engajados no trabalho. Isso significa que, mesmo em semanas cheias, sem feriado algum, quase dois terços das pessoas estão presentes de corpo, mas não de intenção. O calendário fragmentado agrava esse cenário, sem dúvida. Mas não o cria. Ele apenas torna visível o que já estava frágil.
Existe uma diferença concreta entre uma equipe que precisa de cinco dias seguidos para entregar e outra que sabe priorizar, decidir e executar mesmo com três. A primeira depende de volume de horas. A segunda depende de clareza de direção. Ambas sentem as interrupções. Mas só uma consegue atravessá-las sem perder desempenho.
Acompanhando líderes em diferentes setores, vejo um padrão claro nas organizações que atravessam anos assim sem perder ritmo. Elas não trabalham necessariamente mais. Elas desperdiçam menos. Menos reuniões sem dono. Menos decisões paradas à espera de aprovação. Menos rituais mantidos por hábito e não por resultado. Menos gente dependente de supervisão constante para fazer o que já deveria ter autonomia para resolver.
Quando o tempo fica escasso, o desperdício aparece. E ele quase sempre já existia, apenas estava escondido atrás das semanas cheias.
Há ainda um lado mais incômodo, e talvez mais revelador. Um ano com tantas pausas é também um teste de confiança. Confiança no time, no sistema, na capacidade das pessoas de saberem o que fazer quando ninguém está olhando. É fácil manter ritmo quando todo mundo está no escritório, de segunda a sexta, com a agenda cheia e o líder por perto. Difícil é manter quando o feriado estica, quando metade do time está fora, quando o silêncio aumenta.
Quem precisa de vigilância constante para que as coisas aconteçam não tem apenas um problema de calendário. Tem um problema de cultura. E cultura não se constrói em semana cheia nem se perde em feriado. Ela aparece justamente nos intervalos.
O ano de 2026 será desafiador para quem lidera. Em parte, sim, por causa do calendário. Competir com menos dias úteis é uma desvantagem real, e ignorar isso não ajuda ninguém. Mas o calendário também vai funcionar como um revelador. Vai expor quais organizações construíram algo sólido e quais apenas funcionavam por inércia de rotina. Vai mostrar quem investiu em autonomia e quem confundiu presença com produtividade.
Não dá para mudar o calendário. Mas dá para mudar o que se faz com ele. Dá para usar semanas curtas como laboratório de prioridade. Dá para testar se o time funciona com mais autonomia e menos controle. Dá para descobrir quais processos existem porque sempre existiram e quais realmente geram valor.
Talvez a melhor forma de encarar o ano mais interrompido da década seja tratá-lo como o que ele é: não um obstáculo, mas um diagnóstico.
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
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