Biblioteca emparedada: a incrível história de um leitor caçado pela Igreja
Biblioteca emparedada: a incrível história de um leitor caçado pela Igreja
O pedreiro ficou surpreso quando, ao sentar a marreta, encontrou pouca resistência. A parede oca daquela antiga casa em Barcarrota, cidadezinha espanhola próxima à divisa com Portugal, ocultava uma pequena coleção de preciosidades. Dez livros antigos e um amuleto estavam escondidos no vão.
Não eram livros quaisquer. Havia uma verdadeira relíquia ali: um raríssimo volume de "Lazarillo de Tormes" datado de 1554. Encontrar um exemplar praticamente intacto de um dos romances fundadores da literatura espanhola virou motivo de festa.
A reforma da casa aconteceu em 1992. Três anos depois, "Lazarillo de Tormes" e os demais tesouros descobertos naquela tão simples quanto improvável biblioteca de Barcarrota passaram a ser estudados.
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Desde então, uma pergunta se estabeleceu: quem seria o antigo dono dos livros, todos publicados entre 1525 e 1554 e escritos em diferentes línguas? Quem era a pessoa que, num tempo de parca educação, dominava o italiano, o francês, o hebreu, o latim e o português a ponto de ler o que era editado nessas línguas?
Os títulos indicavam um perfil humanista, com interesse pela ficção e disposição para se aproximar do pensamento de filósofos como Aristóteles e Erasmo de Roterdã, intelectual que estava em plena atividade na época da publicação de boa parte das edições encontradas na biblioteca emparedada.
É grande a variedade que há nessas dez obras. Também estão ali livros sobre religião, quiromancia e exorcismo, além de uma ficção sobre judeus convertidos e outra de teor homoerótico.
Pois agora a história dessa biblioteca única ganha um novo capítulo. O pesquisador Pedro Martín Baños acaba de publicar em livro um estudo no qual aponta que o dono desse acervo era o fidalgo português Fernão Brandão. "La Biblioteca Oculta de Barcarrota y el Hidalgo Portugués Fernão Brandão" saiu na Espanha pela PublicaUEx.
Baños fez sua pesquisa a partir do amuleto emparedado junto com os livros. A peça carrega informações que falam de um Fernão Brandão que vivia em Évora, em Portugal, e teria estado em Roma em 23 de abril de 1551. O pesquisador mergulhou em diversos arquivos para tentar entender por que o sujeito teria rumado para a Espanha e o que o teria feito ocultar a própria biblioteca.
Em Évora, Baños descobriu que Fernão vivia na mira da Inquisição portuguesa. Pesavam contra ele uma série de acusações. Documentos do final da década de 1540 apontam que o fidalgo tinha um comportamento totalmente repreensível para a época.
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Eis parte de seus delitos e subversões: comer carne e peixe às sextas, domingos e datas sagradas, não rezar, deixar de ir à missa para jogar bola, sumir durante a quaresma, não se confessar, blasfemar, fazer rituais exóticos. A vida sexual de Fernão causava especial incômodo, tanto que foi acusado de ter livros sacanas em sua biblioteca e de praticar sodomia com seus criados.
Essa longa ficha corrida teria feito Fernão ir até Roma, onde tentaria se defender das acusações e obter uma absolvição direto da Igreja - que provavelmente lhe negou. Aproveitou a ocasião para adquirir o amuleto emparedado. De volta à península ibérica, deixou Portugal e partiu para a Espanha.
Não conseguiu se livrar do obscurantismo. Perseguições contra pecadores aconteciam dos dois lados da fronteira. Fernão passaria a ser ainda mais visado no final dos anos 1550, quando o inquisidor Fernando de Valdés publicou uma lista proibindo quase 700 livros considerados imorais ou hereges.
Alguns dos livros de Fernão estavam nesse índex - dentre eles, a preciosa edição de "Lazarillo de Tormes". Para evitar riscos ainda maiores contra si, o fidalgo achou melhor emparedar a sua pequena biblioteca na casa onde morava em Barcarrota, indica Baños.
Nos deixou uma biblioteca singular e, sem dúvidas, uma grande história.
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