Explosão do consumo global de ayahuasca ameaça plantas nativas da Amazônia
Explosão do consumo global de ayahuasca ameaça plantas nativas da Amazônia
"Uma das maiores farmácias do mundo está sendo destruída", afirma o líder indígena Benki Piyãko, do povo ashaninka, no Acre. O alerta aponta para as múltiplas pressões que avançam sobre a Amazônia, mas também para um momento de crescente debate e de ameaças em torno de uma das chamadas "medicinas da floresta": a ayahuasca.
A bebida indígena, de propriedades psicodélicas, é preparada, em geral, a partir de duas plantas nativas da região: o cipó caapi (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis), espécies que, segundo lideranças indígenas e especialistas, enfrentam pressão crescente e sinais de escassez em algumas regiões.
Denominada kamarãpe pelo povo ashaninka, a ayahuasca, usada há séculos por indígenas da Amazônia, há décadas atravessa fronteiras e deixou de circular exclusivamente em seus contextos originários. Hoje, está presente em centros religiosos urbanos, retiros terapêuticos e circuitos internacionais de turismo psicodélico.
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Cientistas e laboratórios farmacêuticos também voltam sua atenção à bebida ancestral, que já apresenta evidências de potencial terapêutico para diferentes transtornos de saúde mental, como depressão e dependência química. Mas, junto com o crescimento do interesse global, vêm também as preocupações.
À medida que a demanda cresce, a cadeia de circulação da ayahuasca se expande sem um acompanhamento equivalente em termos de manejo e monitoramento. Em diferentes regiões da Amazônia, já há sinais de pressão sobre as espécies utilizadas no preparo da bebida, em geral coletadas sem planejamento. Ao mesmo tempo, o aumento do consumo fora dos contextos tradicionais levanta preocupações sobre a transformação de saberes ancestrais em produtos adaptados à lógica do mercado.
O principal problema parece estar na forma como essa expansão se sustenta, a partir de uma cadeia pouco transparente que conecta a floresta a mercados distantes. Cipó e folhas são coletados em áreas muitas vezes sem manejo estruturado, passam por intermediários e alimentam um fluxo global que, em muitos casos, opera na fronteira da ilegalidade.
Embora o Brasil reconheça o uso religioso da ayahuasca, por meio de resolução do Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), a bebida contém DMT (dimetiltriptamina), uma substância psicodélica controlada tanto pela legislação brasileira quanto por tratados internacionais.
O ponto central da controvérsia é que, embora o DMT esteja listado como substância proibida, as plantas que o contêm e as preparações tradicionais feitas a partir delas, como a ayahuasca, não são explicitamente proibidas, o que cria uma zona cinzenta jurídica. Na prática, a interpretação varia de país para país, e, em muitos casos, autoridades acabam equiparando a bebida a drogas ilícitas, empurrando sua circulação para circuitos clandestinos.
Em um cenário de ausência de políticas de cultivo e proteção, cresce o temor de que a hype da ayahuasca passe a pressionar a floresta mais rapidamente do que sua capacidade de regeneração. "O risco é a ayahuasca virar mercado", resume Benki.
"O que vemos hoje é gente querendo transformar esse conhecimento em produto", prossegue o líder ashaninka, que volta a lembrar que a ayahuasca está inserida em um contexto mais amplo, também ameaçado. "Se você diz que tem espiritualidade, precisa cuidar da terra."
Para ele, a ayahuasca não pode ser dissociada do conjunto de plantas e relações que sustentam a vida na floresta. "Não é só a ayahuasca que está em risco. É todo um sistema de plantas que está sendo pressionado". A fala de Benki revela um pouco do princípio que orienta seu trabalho.
O líder indígena vive na região do Alto Juruá, na fronteira entre Brasil e Peru. Em 2004, deixou seu território para assumir a Secretaria de Meio Ambiente do município de Marechal Thaumaturgo. Três anos depois, formou um grupo de cerca de 80 jovens para trabalhar com técnicas agroflorestais.
A iniciativa evoluiu ao longo dos anos e, em 2018, deu origem ao Instituto Yorenka Tasorentsi, hoje voltado à recuperação de áreas degradadas, à construção de sistemas agroflorestais e ao fortalecimento da governança indígena. Desde então, o projeto articula jovens, comunidades e territórios em torno de práticas de reflorestamento e soberania alimentar, tendo já plantado milhões de árvores na região.
Nos últimos anos, seu trabalho passou a dialogar com uma agenda mais ampla: a articulação de lideranças indígenas de diferentes países para discutir o futuro da ayahuasca em um cenário de crescente circulação global. Após cinco edições das conferências indígenas sobre a bebida, realizadas no Acre, esse debate ganha escala internacional com o Fórum Mundial da Ayahuasca, que acontece de 9 a 13 de setembro, em Girona, na Espanha.
Regulação sob pressão
"Repudiamos todas as formas de comercialização da ayahuasca que formaram um mercado global fora dos limites éticos", afirma a carta final da quinta edição da Conferência Indígena da Ayahuasca, realizada em janeiro de 2025 no Acre, que reuniu representantes de 34 povos indígenas de diferentes países.
O documento sintetiza um conjunto de preocupações que também vem ganhando espaço no debate institucional no Brasil. No mesmo ano, o estado do Acre aprovou a primeira legislação específica do país voltada à regulamentação da extração, transporte e uso das plantas utilizadas no preparo da ayahuasca. Uma iniciativa inédita que, no entanto, vem sendo alvo de críticas.
"Há uma apropriação da medicina da floresta, sem reconhecimento da sua origem e dos povos que detêm esse conhecimento", afirmou o cacique Ninawa Huni Kuin durante uma audiência pública do Ministério Público Federal do Acre, realizada no final de 2025, pouco depois da divulgação das novas regras do Estado.
A audiência reuniu lideranças indígenas, pesquisadores e representantes do estado do........
