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Práticas de descanso: gestos menores diante do Antropoceno

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08.03.2026

Práticas de descanso: gestos menores diante do Antropoceno

Marina Guzzo é professora associada da Unifesp no Campus Baixada Santista, pesquisadora do Laboratório Corpo e Arte no Instituto Saúde e Sociedade. Pós-doutora pelo Departamento de Artes Cênicas da ECA-USP, mestra e doutora em Psicologia Social pela PUC-SP.

Ela é organizadora e uma das autoras do livro "Práticas de descanso: gestos menores diante do Antropoceno", lançado este mês pela NUMA editora.

Marina me concedeu um depoimento sobre o livro, em que defende que é preciso romper a lógica do descanso como utilidade para performar mais e melhor. "O descanso é inútil", diz.

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A obra é um projeto científico, fruto da pesquisa de Marina e de outros cientistas, com apoio da Fapesp e do CNPq.

A ciência não é apenas feita de números e grandes respostas. A Universidade produz conhecimento de outras formas, investigando as ciências humanas e as questões da ordem do sensível, do histórico e tecendo especulações sobre futuro, imaginação de outros modos de vida possíveis e outros modos de cuidado.

É nesta lógica que se inscreve o livro. E é sobre ele a conversa com Marina da qual reproduzo alguns trechos.

O que é o Antropoceno?

É um termo que temos usado para designar a crise que estamos atravessando e especialmente a relação com a questão climática, pois a própria noção de crise já é falha, ao pressupor começo, meio, tratamento e fim.

Ela busca delimitar algo que termina e não sei se a crise que estamos vivendo vai terminar. É preciso falar em novo regime climático como sugere [o antropólogo e sociólogo francês] Bruno Latour.

No livro, falamos de Antropoceno, porque este nome está de alguma forma consolidado, mas sabemos que existem outros nomes para identificar este período geológico em que estamos e que sucede o Holoceno.

Este era um período mais estável da camada geológica da Terra e que possibilitou os movimentos do planeta, inclusive a própria aceleração. O Antropoceno sugere pensar que não existe mais nenhum canto da terra não habitado ou transformado pelo ser humano.

O termo foi cunhado por Paul Crutzen, um químico atmosférico, no início dos anos 2000, propondo que entramos em uma nova época geológica marcada pela ação humana. A força transformadora da espécie teria se tornado comparável a forças tectônicas ou vulcânicas.

Gosto de pensar que o nosso livro é baseado na pergunta inspirada por Kathryn Yusoff, em Million Black Anthropocenes or None (2018): quem é esse "humano"? Esse Antropos? Se trouxermos as camadas relacionadas a questão racial e privilégios, o termo em si tem que ser sempre problematizado.

O importante é entendermos que existe uma certa reorganização, uma ruptura no ciclo estável e estamos vendo outro fluxo geológico, atmosférico, oceânico, que deflagra uma mudança de metabolismo da Terra, uma intensificação da velocidade. E isso cria descompasso entre nossos fluxos humanos e metabólicos, porque não existe separação entre a crise climática e as crises psicossomáticas.

Com tantas e velozes transformações, estamos perdendo a noção do tempo geológico, de recomposição e regeneração, que é de uma escala muito lenta, de milhões e milhões de anos. Extraímos petróleo e achamos que daqui a pouco vai ter mais de novo. E não é assim que funciona.

Estes regimes se transferem pro corpo e pro desejo: tudo é on demand; tudo é pra ontem.

Então, no livro, perguntamos como podemos imaginar outra lógica de operação em relação à escala de produção e a velocidade da produção colocada pelo capitalismo que é centro do antropoceno?

O ser humano chegou a todos os cantos da Terra e sua incidência no planeta tem mudado a forma como a própria terra tem respondido; estamos influenciando geologicamente a atmosfera e os fluxos de águas, marés e clima.

O que o livro propõe diante desta crise?

Olhamos para práticas artísticas como potência de fabulação de presente, passado e futuro e possibilidade de constituir um campo onde temos a atenção mais convocada para certas questões.

Na minha pesquisa, estudei gestos artísticos e as relações com a crise climática; o livro reúne 16 gestos e um destes gestos é o descansar. A obra é uma cartografia de práticas que vem sendo objeto de reflexão e ação de pessoas que estão fazendo, pensando e olhando pra isso.

Pensamos o descanso nas várias formas, entendendo que não existe um caminho único e não existe uma "salvação pelo descanso". Pelo contrário. Falamos do quanto é complexo olhar para a pausa e o descanso, porque isso aponta para o privilégio do descanso. Quem pode descansar? Este é um grande paradoxo.

Precisamos falar do descanso no lugar de potência de imaginar outros modos de estar no mundo, mas também de para quem é negado e por que não pode acontecer para diversos setores de produção e diversos corpos. Por que alguns corpos estão mais exaustos que outros?

O conjunto dos ensaios publicado no livro enfrenta esta complexidade e propõe uma forma de se relacionar com a arte e a saúde diferente da saúde apenas biomédica. Não falamos de um descanso para a saúde biomédica. Mas de vários tipos de descanso para além do fisiológico ou da ausência de trabalho.

Queremos falar do descanso que tem relação com potência de vida, com a possibilidade de ser saudável, de ter uma vida interessante, que abre espaços, que tem tempo e desaceleração e que pode transformar o jeito que a gente vive no mundo.

Como a obra pode nos ajudar no dia a dia?

O livro está organizado em quatro eixos.

Um eixo é o de imaginar formas de cuidado: o cuidado em relação com o descanso, quem cuida, a exaustão de quem cuida, por exemplo, das mulheres negras. O que seria o pós-cuidado?

Outro eixo é o de práticas corporais e experimentações mais que humanas: a relação com a natureza, o dançar nas águas, na floresta, descansar com técnicas somáticas como a eutonia, BMC (body-mind centering), o ouvir o grito das células. Pensar que o descanso passa pela boca, pela alimentação; pensar

Outro eixo é sobre ancestralidades e ecologias do corpo: o ritmo, o rito, o ritual, as escolas vivas, o ciclo selvagem, o toque, o prazer, os sonhos. É um outro tempo. Estamos com tudo muito dado do ponto de vista da imaginação. Acessamos estímulos e imagens prontas. A IA faz as próprias perguntas. Os tempos dos vazios são importantes; os rituais são importantes, assim como os tempos da comunidade.

Por fim, outro eixo fala da desobediência e da invenção poética; da possibilidade de inventar e dos olhares de subverter: é a lógica da capoeira, da ideia de vadiar, de descansar; pensar maneiras de abrir rachaduras nos tempos para poder resistir.

Na educação física, que é uma das minhas áreas de atuação, sabemos que o descanso é tão importante quanto a série de treino, mas cada ano que passa, chegam nas escolas pessoas com menos contato com esse tempo da contemplação e com dificuldade de entrar neste outro ritmo, porque é inútil.

Por isso é tão importante pensarmos em como instigar o nosso desaprender a viver dessa maneira e reaprender a viver de outra forma. Para conseguirmos, é preciso praticar e juntos, porque sozinho é muito mais difícil.

Por fim, estas práticas são chamadas de menores, não por serem gestos sem importância, mas porque estão relacionadas com um dos aspectos da vida: da micropolítica; e com a possibilidade de transformação cotidiana da vida.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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