Sem querer apoio público para Flávio, o que bolsonaristas esperam de Trump?
Sem querer apoio público para Flávio, o que bolsonaristas esperam de Trump?
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Reconheço que me soou surpreendente quando eu ouvi de fontes bolsonaristas nos EUA que eles não esperam - e nem desejam - que Donald Trump declare seu apoio aberto à candidatura à presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Flávio desponta como o principal nome da direita a desafiar o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), que tentará a reeleição no pleito de outubro.
Em 2022, os bolsonaristas vibraram com um vídeo de 45 segundos em que o então ex-presidente americano Trump estimulava os brasileiros "a saírem de suas casas para votar em Bolsonaro".
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Mas, o processo de tarifaço e sanções contra o Brasil capitaneado pelo então deputado federal Eduardo Bolsonaro no ano passado (com o qual ele pretendia impulsionar uma anistia ao pai, condenado e preso por Golpe de Estado) sedimentaram em ao menos parte da direita uma percepção de que a interferência aberta de Trump na política brasileira pode ter resultados contrários aos desejados.
Uma pesquisa eleitoral da Quaest divulgada nesta sexta (13) confirma a ambivalência de um apoio de Trump a Flávio Bolsonaro. Enquanto que para 28% dos pesquisados, esse endosso aumentaria as chances de votar em Flávio, para 32%, o apoio trumpista a Flávio aumentaria a chance de votar em Lula.
Mas se não é o endosso público o que bolsonaristas esperam obter, o que querem eles de Donald Trump?
Hoje há ao menos duas prioridades muito claras envolvendo os EUA.
A primeira é convencer Trump a usar todas as suas ferramentas para impedir que as big techs norte-americanas - Instagram, Youtube, Facebook, Whatsapp e outras - moderem ou retirem do ar conteúdos produzidos por bolsonaristas sob o argumento de serem fake news.
"Nosso eleitorado está nas redes, ali somos imbatíveis. Se acontecer o que aconteceu em 2024, quando derrubaram muito conteúdo, vamos perder de novo. É isso que queremos que Trump evite", me disse um dos bolsonaristas com acessos em Washington.
Para isso, o grupo de Flávio precisa que Trump se engaje nas negociações com o governo brasileiro contra regulações ao ambiente digital, mas não só. A pressão poderia passar pela retomada de sanções da Lei Global Magnitsky sobre integrantes do Judiciário do Brasil - como aconteceu com o ministro do STF Alexandre de Moraes - e também por tarifas, embora essa ferramenta possa ter mais potencial de ferir do que de ajudar.
A missão não é considerada das mais difíceis, já que o próprio Trump é dono de uma rede social - a Truth Social - já envolvida em disputas com o STF, tem sido fartamente apoiado pelos CEOs das big techs, que são os grandes motores da economia dos EUA, e entende a liberdade de expressão a partir da perspectiva absoluta da Constituição dos EUA - onde discurso de ódio não é criminalizado.
O próprio Trump passou um período no umbral do banimento de redes sociais depois do ataque de 6 de janeiro ao Capitólio, e a ideia de moderação do discurso político em redes têm impacto pessoal sobre ele.Do outro lado da rua, o governo Lula percebe nas big techs exatamente o maior risco de interferência americana decisiva no resultado eleitoral em 2026. E tenta costurar uma visita de Lula a Trump na Casa Branca para contra-argumentar no assunto e dissuadi-lo de colocar o dedo na balança atuando em relação ao que pode ou não estar nas redes sociais no Brasil.
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A segunda prioridade dos bolsonaristas está adiantada em Washington. Como mostrei essa semana, o Departamento de Estado concluiu a papelada para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês).
E apesar da entrada em campo da diplomacia brasileira para barrar a ideia, o governo Lula sabe que esta é uma batalha quase perdida.
Trump já fez o mesmo com mais de uma dúzia de facções criminosas e cartéis de narcotraficantes na América Latina. O assunto interessa à agenda doméstica de Donald Trump - que prometeu acabar com o tráfico de fentanyl e com a imigração ilegal ao país - e também dá a ele justificativa diante da opinião pública para ações de força no continente.
A Casa Branca apelou ao expediente (que não serve de fundamento legal à luz do direito internacional) tanto para bombardear supostas embarcações no Mar do Caribe quanto para decapitar o governo da Venezuela, com a retirada militar de Nicolás Maduro do país em janeiro passado. A possibilidade entusiasma os bolsonaristas e dá calafrios no governo Lula.
No Brasil, historicamente, o tema da segurança pública é visto como aquele em que a direita se sai bem, enquanto a esquerda costuma ser acusada de "proteger bandido".
Flávio Bolsonaro se apressou a dizer que sentia "inveja" dos bombardeios americanos no Caribe, e que gostaria de ver o mesmo se repetir com traficantes na Baía da Guanabara. E jogou Lula no pouco auspicioso lugar de candidato de esquerda que rechaça supostas soluções duras (embora questionáveis) contra a violência urbana.
Mas a importância da questão supera o debate eleitoral.
Em que pesem os argumentos técnicos do Planalto de que narcotraficantes não são motivados em seus atos violentos por aspectos ideológicos/religiosos/étnicos que caracterizam o conceito de terrorismo e buscam tão somente o lucro ilícito, o ponto mais delicado do debate está na soberania nacional.
Auxiliares de Lula me perguntaram: "o que conteria os EUA se eles decidirem fazer com o Brasil o que fizeram com a Venezuela?"
Quando rebati aos bolsonaristas a mesma questão, nova surpresa.
"O risco Venezuela existe, sim. Claro que quando você convida alguém muito mais forte do que você a atuar no seu território, ele pode chegar pra ficar, tentar tomar o poder. Mas o risco vale a pena", me disse um dos mais próximos auxiliares de Flávio, que percebe a população brasileira ansiosa para ver "mísseis tomahawk lançados sobre o Comando Vermelho".
Em janeiro, o pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) esteve em Washington D.C. para um tour no qual foi apresentado como o herdeiro do movimento político populista de direita pelo irmão, Eduardo, ao segundo escalão do Departamento de Estado e da Casa Branca. Funcionários do governo de Donald Trump têm acompanhado com atenção as insuspeitas pesquisas eleitorais que mostram Flávio em empate técnico com Lula.
O entusiasmo de Darren Beattie, conselheiro-sênior de política para Brasil do Departamento de Estado, que priorizou um pedido de visita a Bolsonaro na Prisão da Papudinha, em Brasília, a agendas com representantes do governo brasileiro é prova do engajamento de parte do trumpismo no pleito do Brasil.
Beattie acabou tendo tanto a visita quanto o visto cancelados após acusação de "ingerência política" e de "má-fé" na justificativa para o pedido de entrada no Brasil.
Em fevereiro, em visita ao Departamento de Estado, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, pré-presidenciável pelo PSD, chegou a ouvir de um dos diplomatas americanos que a estratégia de dividir a direita não lhes parecia a ideal. "Qualquer centavo gasto em ataques entre candidatos de direita, é um centavo a menos gasto contra Lula", disse este diplomata, demonstrando claro interesse em evitar divisão da direita.
No fim de março, Flávio virá de novo aos EUA discursar em um evento no qual estará Donald Trump. Pode ser a primeira vez em que ambos estarão juntos. Neste momento, os bolsonaristas esperam entender se, além de seus funcionários, o próprio Donald Trump vai, de fato, decidir apoiar a campanha de Flávio - e se o fará nos termos que os bolsonaristas desejam.
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