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Declaração de Trump sobre o Irã coloca a FIFA em nova saia justa

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Declaração de Trump sobre o Irã coloca a FIFA em nova saia justa

Quando a FIFA decidiu conceder um "Prêmio da Paz" ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o sorteio da Copa do Mundo em dezembro passado, dificilmente imaginava que, poucos meses depois, o gesto ganharia um significado tão desconfortável. O prêmio, apresentado como símbolo da capacidade do futebol de aproximar povos e construir pontes, passou a ser um outdoor de incoerência institucional.

Trump se tornou, no centro de uma escalada militar no Oriente Médio, o presidente de uma guerra. Da algumas guerras. E suas declarações recentes colocaram a própria FIFA em uma situação ainda delicada. Em publicação nas redes sociais, ele afirmou que não seria "apropriado" que o Irã disputasse a Copa do Mundo "pela própria vida e segurança" dos jogadores.

A declaração veio apenas um dia depois de o presidente da FIFA, Gianni Infantino, afirmar publicamente que a entidade estava monitorando a situação e que a segurança da seleção iraniana seria garantida no torneio. Em poucas horas, o futebol se viu novamente no meio de uma crise geopolítica e a promessa de neutralidade esportiva voltou a ser colocada à prova.

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Direitos humanos e esporte

O episódio expõe um problema recorrente no futebol contemporâneo: a dificuldade de transformar compromissos formais com direitos humanos em decisões institucionais coerentes. Nos últimos anos, o esporte passou a reconhecer que não pode se dissociar das normas internacionais de proteção à dignidade humana.

Esse compromisso está expresso no próprio Estatuto FIFA e, de maneira ainda mais clara, na política de direitos humanos adotada pela entidade em 2017, após o escândalo conhecido como FIFAGate. Inspirado nos Princípios Orientadores da ONU sobre Empresas e Direitos Humanos, o documento estabelece deveres de prevenção de riscos, transparência e proteção de grupos vulneráveis em eventos organizados pela entidade.

Na prática, isso significa que a FIFA não pode tratar temas como segurança de delegações, liberdade de imprensa ou proteção de minorias como questões periféricas. Megaeventos esportivos envolvem trabalhadores, jornalistas, torcedores e atletas de diferentes nacionalidades e contextos políticos. Garantir que todos possam participar com segurança e liberdade não é apenas uma promessa institucional , é uma obrigação assumida publicamente.

Neutralidade esportiva

Sempre que crises políticas atingem o futebol, surge o mesmo argumento: o esporte deveria permanecer neutro. A ideia parece simples, mas raramente resiste à realidade. O movimento esportivo toma decisões com impacto político o tempo todo, seja ao escolher sedes, suspender federações ou impor sanções a países.

A história recente mostra que a neutralidade absoluta nunca existiu. Nem poderia, neutralidade é a Utopia de Thomas More. Países já foram excluídos de competições por conflitos armados, violações de direitos humanos ou decisões geopolíticas. O que muda, na prática, são os critérios utilizados para justificar essas decisões.

O verdadeiro desafio não é evitar que o esporte se relacione com a política, algo inevitável em competições globais. O desafio é garantir que essas decisões sejam tomadas com critérios claros, previsíveis e coerentes com os compromissos que as próprias entidades esportivas dizem defender.

O paradoxo do Prêmio da Paz

Nesse contexto, o chamado "Prêmio da Paz" concedido a Trump ganha contornos ainda mais simbólicos. Premiações desse tipo carregam um significado político e institucional importante. Elas comunicam valores, reforçam narrativas e projetam a imagem pública das organizações que as concedem.

A premiação gerou questionamentos imediatos de organizações internacionais de direitos humanos. Entidades como a Human Rights Watch e a Sport & Rights Alliance pediram transparência à FIFA sobre os critérios utilizados para conceder o chamado "Prêmio da Paz". As organizações perguntaram quais parâmetros foram adotados, quais riscos de direitos humanos foram considerados e de que forma a entidade avaliou o impacto da decisão em um momento marcado por tensões internacionais e políticas migratórias duras.

Para essas entidades, iniciativas simbólicas dessa natureza precisam ser acompanhadas de processos claros e critérios públicos. Um prêmio que pretende representar valores universais - como paz, diálogo e cooperação entre povos - não pode surgir sem explicação sobre como seus destinatários são escolhidos. Transparência não é um detalhe burocrático: é parte da credibilidade de qualquer gesto institucional dessa magnitude.

Por isso, iniciativas desse tipo precisam estar apoiadas em critérios transparentes e em processos claros de escolha. Quando um prêmio que pretende representar compromisso com a paz surge sem critérios divulgados, sem lista de indicados e sem explicação sobre o processo de decisão, ele corre o risco de produzir o efeito contrário ao pretendido.

No caso da FIFA, a situação se torna ainda mais delicada quando o premiado passa a protagonizar declarações que colocam em dúvida a segurança de uma seleção classificada para o torneio. A incoerência não é apenas simbólica , ela atinge diretamente a credibilidade institucional do próprio prêmio.

Critérios e coerência

Nos últimos anos, a própria FIFA passou a exigir critérios mais rigorosos de direitos humanos para a escolha de sedes de Copas do Mundo. Países candidatos passaram a apresentar planos de mitigação de riscos, compromissos com trabalhadores e mecanismos de monitoramento independente.

Foi um avanço importante. Pela primeira vez, a entidade reconheceu que megaeventos não podem ser avaliados apenas por infraestrutura ou viabilidade financeira. Eles precisam demonstrar capacidade de proteger pessoas.

O problema surge quando essa exigência não se reflete com o mesmo rigor nas decisões simbólicas e políticas da própria organização. Se a FIFA cobra transparência e compromisso de países e federações, precisa aplicar os mesmos padrões às suas próprias escolhas.

O futebol gosta de dizer que une o mundo. Em muitos momentos, isso é verdade. Mas essa promessa só se sustenta quando acompanhada de coerência institucional.

Premiar líderes políticos em nome da paz e, poucos meses depois, lidar com declarações que colocam em dúvida a segurança de uma seleção mostra como o esporte ainda precisa amadurecer sua governança.

Direitos humanos não são um detalhe da organização do futebol global. São parte da sua legitimidade. E, sem critérios claros e decisões coerentes, até os gestos simbólicos mais bem-intencionados podem se transformar em problemas difíceis de explicar.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

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