menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Viver por viver, não mais para contar: um não ao predomínio do trabalho

11 56
27.02.2026

Viver por viver, não mais para contar: um não ao predomínio do trabalho

"A vida não é a que cada um viveu, e sim a que cada um recorda e como recorda para contá-la." Durante muitos anos, até pouco tempo atrás, acho que vivi de acordo com essa máxima. São as palavras com que Gabriel García Márquez abre a sua autobiografia, palavras das quais poucos escritores costumam discordar. A vida, para um escritor dedicado, pode ser uma sequência de experiências menos ou mais valorosas, cujo valor se estima pelo efeito posterior que produzem quando narradas. Não interessa, então, se um escritor se anima, se alegra, se comove, se apaixona. Interessa se será capaz de provocar um efeito semelhante, fazer daquilo matéria suficiente para animar, alegrar, comover, apaixonar.

Já não concordo com García Márquez, não concordo com o escritor que fui durante tantos anos. Talvez não seja dedicado o bastante, talvez me falte algo da ambição de jovem, mas não creio mais que a finalidade última da vida estaria em sua conversão em prosa, menos ainda para o consumo de alguns estranhos. Escrever pode ser uma forma privilegiada de entender uma experiência própria, de fixá-la num sentido particular, mas não é a única e nem mesmo a melhor. Recordar com palavras........

© UOL