Sobre a imaginação infinita das crianças, que tão bem faria aos adultos
Sobre a imaginação infinita das crianças, que tão bem faria aos adultos
A certa distância, sempre senti uma admiração profunda pela imaginação infantil. Que uma criança pudesse conceber ao seu lado, com seriedade absoluta, a existência de um ser todo imaginário, um amigo de todas as horas sem nenhum rosto e nenhuma voz, ocupando um vazio insondável. Isso era, para mim, a disposição criativa em seu ápice, inventar um personagem fictício e nele investir uma ampla gama de emoções e atributos, e nele acreditar como se estivesse presente e vivo. Era justamente o que me faltava como escritor, e nisso não há novidade: há tempos me vejo como um ficcionista carente de imaginação, condenado aos estreitos confins da realidade.
E então me fiz pai, me fiz testemunha ocular da imaginação infantil em sua face diária, e descobri que me enganava. Que aquilo chegava a ser muito maior do que eu enxergara, que a capacidade das crianças de fundar realidades próprias vai bem além da criação de falsos indivíduos avulsos, singulares. E que talvez nos caiba mais do que apenas observá-las com olhos admirados, talvez nos caiba de fato tentar imitá-las, incorporar à nossa existência cotidiana seus rompantes de surpresa e riso, seu compromisso inadiável com as vastas paragens da irrealidade.
Um tanto estupefato, é o que admito, tenho acompanhado a vida criativa de Penélope aos seis anos de idade. O início de sua fantasia talvez tenha se parecido ao que eu já esperava, com uma ligeira nuance: ela não veio um dia nos apresentar um amigo imaginário, em vez disso se fez ela própria esse amigo. Partiu sua existência em dois personagens distintos, um deles a menina indomável que já conhecíamos, o outro Dodô, um alegre bebê que mal dominava as palavras e amiúde estranhava a lógica tortuosa do mundo dito normal. Por vezes era Dodô quem despertava na cama de Penélope, era Dodô quem se punha a brincar com suas bonecas, quem folheava seus livros, quem vinha à mesa para jantar conosco, com seus gostos e desgostos peculiares.
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Pensei que nos acompanharia por pouco tempo, que seria uma brincadeira como outras, efêmera, fugaz. Mas Dodô se instalou em nossa casa e foi crescendo ao longo dos meses, dos anos, foi desenvolvendo primeiro um sotaque próprio, depois todo um idioma. A esse se somaram outros personagens que tomaram os nossos corpos, o da irmã e o dos pais, Badô, Lica, Vato, e mais outros que até prescindem de uma existência corporal, Choto, Notto, vivendo em distantes países ou dimensões. Dodô é agora o centro de um mundo farto, com suas músicas e danças, sua literatura, seus processos eleitorais, seus mitos fundacionais — descem do céu os Dodôs nas gotas de chuva e nascem das pétalas das flores.
Eu poderia passar aqui longo tempo a descrever as nuances dessa rica cultura, me fazendo o antropólogo de um mundo que não domino, que apenas contemplo de longe com olhos curiosos. Mas não adiantaria, em minhas palavras eu jamais alcançaria a imensidão daquilo tudo, a vivacidade com que Penélope se entrega à sua realidade alternativa, na brincadeira que é sua ocupação mais intensa e mais querida — como Freud disse que devia ser. Eu poderia lamentar também, como às vezes lamento, a presença um pouco excessiva de Dodô em nossas vidas, que chega até a nos provocar alguma saudade de Penélope. Por sorte a menina tem o seu discernimento, talvez até certo senso do ridículo, e basta sairmos de casa para que Dodô desapareça e nos devolva à companhia cálida da nossa filha.
O que a impele a brincar assim não é fácil de entender. Freud afirma que as brincadeiras são guiadas por desejos, quase sempre por um desejo específico, o de ser grande e poder emular o mundo dos adultos. Penélope talvez brinque assim para ter a chance de não ser só uma menina, a filha que ela é a cada dia, mas também uma mãe, uma professora, uma escritora, uma musicista, e a presidenta de seu país, e a fundadora de seu universo mítico. E eu me pergunto, e insisto nessa pergunta, se não deveríamos fazer o caminho inverso, se não deveriam ser os adultos a emular o mundo das crianças, com sua vitalidade perdida, com sua magnífica liberdade para a fantasia.
Tenho uma hipótese que algum teórico já há de ter provado com uma digna pesquisa. Que nascemos todos imensamente criativos, capazes de uma imaginação exuberante, da fundação de mundos mentais infinitos, e pouco a pouco vamos abandonando essas faculdades psíquicas, vamos reprimindo existências fantásticas e deixando que reste apenas a realidade, com sua indigência característica. Freud diz que o escritor é quem transcende esses limites, convertendo a brincadeira no ato autoral da fantasia, mas eu não tenho essa certeza. Tenho sim a certeza de que há nesse estreitamento do mundo uma perda sensível, e que todos deveríamos reaprender a ser mais indomáveis, mais ridículos, estranhos, inadequados, imprevisíveis.
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