Sobre a imaginação infinita das crianças, que tão bem faria aos adultos
Sobre a imaginação infinita das crianças, que tão bem faria aos adultos
A certa distância, sempre senti uma admiração profunda pela imaginação infantil. Que uma criança pudesse conceber ao seu lado, com seriedade absoluta, a existência de um ser todo imaginário, um amigo de todas as horas sem nenhum rosto e nenhuma voz, ocupando um vazio insondável. Isso era, para mim, a disposição criativa em seu ápice, inventar um personagem fictício e nele investir uma ampla gama de emoções e atributos, e nele acreditar como se estivesse presente e vivo. Era justamente o que me faltava como escritor, e nisso não há novidade: há tempos me vejo como um ficcionista carente de imaginação, condenado aos estreitos confins da realidade.
E então me fiz pai, me fiz testemunha ocular da imaginação infantil em sua face diária, e descobri que me enganava. Que aquilo chegava a ser muito maior do que eu enxergara, que a capacidade das crianças de fundar realidades próprias vai bem além da criação de falsos indivíduos avulsos, singulares. E que talvez nos caiba mais do que apenas observá-las com olhos admirados, talvez nos caiba de fato tentar imitá-las, incorporar à nossa existência cotidiana seus rompantes de surpresa e riso, seu compromisso inadiável com as vastas paragens da irrealidade.
Um tanto estupefato, é o que admito, tenho acompanhado a vida criativa de Penélope aos seis anos de idade. O início de sua fantasia talvez tenha se parecido ao que eu já esperava, com uma ligeira nuance: ela não veio........
