História de uma dor: os 50 anos do golpe na Argentina
História de uma dor: os 50 anos do golpe na Argentina
Foi há exatos cinquenta anos na última terça-feira. Um acontecimento terrível que marcou a história do continente, a história de um país, as histórias de dezenas de milhões de habitantes seus, acossados, assombrados, descontentes. Marcou também uma história mais irrelevante, a deste sujeito que aqui assume a palavra, do homem que sou e daquilo que acredito que seja a minha vida, a minha identidade.
Eu não seria brasileiro não fosse pelo golpe de 24 de março de 1976, que tomou de assalto o poder na Argentina e instaurou um dos regimes mais nefastos que o mundo já conheceu. Meus pais não teriam sido perseguidos e ameaçados, eu não teria nascido alguns anos mais tarde durante o exílio deles em São Paulo. Não falaria português, não teria vivido o deslocamento linguístico que fez de mim um escritor, a inquietação política que fez de mim um jornalista. Não teria conhecido na faculdade a companheira com quem estou há duas décadas, não teria hoje as minhas duas filhas. Se existisse, se impossivelmente tivesse nascido desses mesmos pais em outro lugar, em outro contexto, seria eu mesmo um outro em que jamais poderia me reconhecer.
E, ainda assim, não há desgraça nenhuma na minha origem, não há um trauma evidente, talvez nem mesmo uma dor inquestionável. Isso fui percebendo aos poucos, habitando uma casa que cultivava seus silêncios e nostalgias, sim, fui percebendo que aquele exílio também era meu e afinal não era triste. Já o........
