Felizes os tristes: da contradição entre aquilo que se sente e o que se é
Felizes os tristes: da contradição entre aquilo que se sente e o que se é
É sabido que as pessoas sombrias, os melancólicos, escrevem sempre coisas alegres, ao passo que as pessoas cheias de alegria suscitam tristeza com seus escritos. Isso quem escreveu não fui eu, foi Anton Tchékhov numa carta a uma amante sua, explicando por que seus protagonistas podiam ser tenebrosos se ele escrevia sempre animado, tomado pelo bom humor de todos os dias. Em Tchékhov convém acreditar, mas estive algum tempo à procura de exemplos que sustentassem seu argumento audaz e sinto dizer que não os encontrei.
Em vez disso pensei em Kafka, que era melancólico e escreveu livros melancólicos também, ainda que tivesse o incompreensível desejo de que ríssemos com eles. E pensei em Clarice Lispector, que era séria e indisposta ao riso e acabou escrevendo livros seríssimos, em que qualquer riso do leitor incorreria num despudor tremendo. E pensei em Luis Fernando Veríssimo, sujeito suave e alegre, embora com um ligeiro licor de tristeza nos olhos,........
