1ª general diz não ser feminista, mas prega igualdade de oportunidades
1ª general diz não ser feminista, mas prega igualdade de oportunidades
Claudia Lima Gusmão Cacho mistura seriedade com simpatia e uma leve timidez. É moderada nas palavras. Primeira mulher a ocupar o posto de general no Exército brasileiro, a médica reconhece ser inspiração para milhares de jovens, especialmente para as que estão ingressando nas Forças Armadas. Mas evita polêmicas e temas sensíveis para a caserna, entre eles, as condenações de colegas de farda por envolvimento na trama golpista.
A general, que durante a pandemia esteve na linha de frente dos hospitais do Exército, prefere avaliar os acontecimentos recentes destacando o papel do Exército como uma "instituição de 377 anos de história". Também se esquiva de uma avaliação conclusiva sobre a participação de militares na política.
O UOL conversou com ela na última terça-feira (7), em sua primeira entrevista exclusiva. Ela toma posse em cerimônia na segunda na direção do Hospital Militar de Área de Brasília.
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Pernambucana, formada em pediatria e mãe de duas filhas, a general —que é casada com um agora colega de patente— defende que o ingresso de mulheres ocorra de forma gradual nas Forças e ressalta que hoje "elas já estão em todos os postos".
Na conversa, também fala sobre o diferencial das mulheres no Exército e, sobre a maternidade, destaca a importância do trabalho de prevenção para evitar assédios e ressalta a necessidade de quebrar preconceitos em relação a problemas de saúde mental.
A seguir os principais trechos da entrevista:
Da inserção gradual ao generalato
A general, que ingressou no Exército em 1996 por meio do serviço militar feminino voluntário para as profissionais de saúde, diz que a inserção de mulheres nas Forças Armadas tem sido gradual, afirma ter sido sempre bem recebida e recomenda às novatas que tenham conhecimento sobre o trabalho militar e se preparem física e mentalmente.
"Acho que foi realmente uma inserção bem gradual, mas hoje nós temos mulheres em todos os postos, dentro do Exército, e acho que isso foi muito importante", diz.
"Hoje existem inúmeras formas de ingresso nas Forças Armadas, falo aqui do Exército, seja como militar de carreira, como temporário, como elas estão entrando agora, as soldados [...] é muito importante a preparação, é uma profissão que exige da gente um preparo físico, um preparo intelectual", afirmou.
Sobre ser vista como inspiração, Claudia afirma que costuma dizer para as mais novas acreditarem que também são capazes.
"Eu acho que isso é importante. Muitos militares, ou mesmo não militares, [me dizem] 'poxa, você me representa, que legal'. Então, essa repercussão positiva foi muito boa. E foi bom para incentivar. Se é isso que você quer, vai, vai dar certo, você consegue, acredita que você consegue."
Força física e inteligência das mulheres
A despeito de o Exército já ter pontuado a diferenciação da parte física entre homens e mulheres, com antigos documentos que apontavam para uma desvantagem feminina em campos de operação, a general afirma que não vê nada que impeça uma mulher de exercer qualquer atividade dentro do Exército.
"A gente precisa ter o preparo físico, mas nós vemos hoje que as mulheres estão fazendo todos os cursos. Nós temos as nossas paraquedistas, que é um curso que exige muito fisicamente. Já temos mulheres que fizeram curso de guerra na selva. Temos mulheres pilotos. Temos as mulheres na escola de sargento, na área logística, técnica de saúde, mas atuando nas áreas operacionais também, nos batalhões, que fizeram missões de paz, temos as mulheres na Brigada Paraquedista, em todos os lugares operacionais elas estão."
"Então, é lógico, a gente não vai dizer que as peculiaridades femininas não existem. Nossos testes físicos, eles são adaptados para essas peculiaridades. Não vai ser nada cobrado que não seja o certo, o correto para a mulher fazer."
Ela salienta que não há proibições e que hoje em situações de combate a força necessária nem sempre é a física. "Às vezes, o pessoal vê aquele combate corpo a corpo de muitos anos atrás. E a gente vê que hoje não é isso." Sobre atuação em inteligência, por exemplo, ela comenta: "Isso aí nós temos bastante"
Assédio e violência entre os militares
A general comentou sobre o caso recente de feminicídio dentro do QG em Brasília, quando um soldado matou uma cabo de 25 anos, em dezembro do ano passado. O feminicídio vai a julgamento no tribunal do júri após desmembramento determinado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça)."Infelizmente aconteceu. O militar foi afastado, foi excluído já, mas aconteceu. Eu vejo que tudo isso, não só no Exército ou fora, a gente tem que trabalhar para não acontecer."
"Desde dentro da família, é o respeito com a mulher, o respeito no tratar, se uma criança está vendo ali dentro de casa que não existe esse respeito, ela acaba crescendo com essa informação errada. Tem as políticas públicas que estão acontecendo, mas tem de trabalhar realmente na base ali."
Claudia acredita, no entanto, que a sensibilidade feminina pode ajudar na prevenção de crimes contra mulheres e também na questão do assédio moral e sexual, cuja tendência —assim como na sociedade— é crescente com mulheres em postos de destaque.
"A Força, o Exército, ele não aceita nenhum tipo de discriminação ou assédio moral ou sexual. Isso aí é um tema que, inclusive, é prioritário. Todos os militares têm recebido capacitações sobre prevenção, assédio moral e sexual. Em todos os níveis. Desde o soldado, até o Alto Comando. Todo mundo está engajado nisso, na prevenção."
"Não me considero feminista"
Sobre o paradigma de mulheres no mercado de trabalho, que misturam a necessidade de equidade com a diferenciação por características femininas, a general afirma que "busca igualdade" de oportunidades.
"Eu não me considero uma feminista, mas acho que é igualdade de oportunidades. Isso aí é o mínimo. E aí você... E dentro de você, você saber que, olha, eu posso. Acho que a gente precisa crer nas nossas capacidades, se preparar para isso", afirma.
"Às vezes a gente vê pessoas que acham que não têm capacidade e têm. Talvez, antes, muito antes, talvez eu não me imaginasse que um dia eu estaria aqui. Mas eu resolvi aproveitar aquela oportunidade que apareceu. Acreditei que eu tinha capacidade de prosseguir e hoje eu estou aqui. Eu acho que a gente precisa acreditar e se preparar, porque as oportunidades vão aparecer."
Maternidade e as Forças
A general diz que esse ingresso gradual das mulheres em idade fértil faz também com que a maternidade seja vista de uma maneira "muito natural dentro do Exército".
"A nossa licença é de quatro meses, podendo ser prorrogada por mais dois meses. Eu vou dirigir um hospital que a maioria, hoje, 52% do nosso hospital é mulher, tá? E que entram em idade fértil. Eu mesma tive a maternidade da minha filha mais nova dentro do Exército, normal, trabalhando normal, tirando serviço até o período que precisava tirar o serviço, depois a maternidade, depois o retorno ao trabalho."
"Não tem nenhum tipo de discriminação com a gestação. Ela é encarada muito naturalmente dentro do Exército", diz.
Preocupação com a saúde mental
A general salientou ainda sobre a preocupação crescente com a saúde mental da tropa.
"Principalmente depois da pandemia, né? Esse tema voltou muito a aparecer. A gente precisa estar sempre monitorando, de ter o que a gente chama o canga, aquela pessoa que está preocupada se você tá agindo diferente. E a gente estende isso aí realmente também à família. A gente precisa que a nossa família esteja bem, para que o militar também esteja bem."
Sobre as dificuldades de militares buscarem ajuda, a general diz que o trabalho é justamente fazer a pessoa procurar ajuda. "A nossa carreira tem essas peculiaridades. Nós somos treinados para situações até de estresse. Então a gente precisa disso. O treinamento contínuo."
Claudia evita analisar o período da pandemia sob o ponto de vista político, diz que atuou como médica, se esquiva de fazer críticas, mas afirma que seguiram as orientações do Ministério da Defesa.
"Eu tinha acabado de passar a direção do Hospital de Guarnição de Natal e estava movimentado aqui para a Diretoria de Saúde. Então, assim que eu cheguei, foi quando estourou a pandemia e aqui foi criado o Centro de Coordenação de Operações e Saúde."
"Foi um trabalho bem intenso, a gente não parou. Na pandemia, a gente ficava aqui de domingo a domingo".
Ao ser questionada sobre a questão política da época, que chegou a orientar por medicamentos ineficazes contra a covid, Claudia reiterou que "estava atuando realmente como área médica".
Indignada sobre como via a prisão de generais na trama golpista e se a imagem das Forças Armadas estaria manchada, a general afirmou que o Exército é uma instituição apartidária e exaltou os seus quase 400 anos de existência.
"O Exército é uma instituição de Estado, permanente, ela é um reflexo da sociedade. Acho que o Exército está sempre com a sua história, está sempre entregando à sociedade. É aquele nosso lema: o braço forte, a mão amiga. Você pode ter certeza que o Exército está sempre lá na hora que ele deve estar. Eu penso sempre assim."
"São 377 anos de história que o Exército, como instituição, apartidária, ele vai fazendo, cumprindo. A gente tem a nossa missão e é isso que a gente tem que fazer, cumprir a nossa missão do Exército."
Militares na política
Claudia, no entanto, disse não ter uma opinião fechada sobre a participação de militares nas disputas eleitorais e afirmou que o tema deve ser discutido pelo Alto Comando.
No início da gestão de José Múcio na Defesa, o ministro tentou emplacar uma PEC que impedisse que militares que fossem candidatos retornassem para as Forças Armadas caso fossem derrotados. O projeto, porém, não prosperou.
"Hoje a orientação é quando o militar se candidatar, ele se afasta. Ele já se afasta normalmente. E aí depois ele volta, caso não seja eleito. Acho que isso vale estudo."
"Acho que é uma opção, é uma escolha. Então, o militar que quer seguir a vida política, pública e acho que ele faz uma opção, mas eu particularmente não tenho uma opinião sobre esse assunto, eu sigo o que hoje é feito."
A general, porém, afirma que a orientação é não fazer política dentro do quartel. "A gente sempre teve a orientação de manter realmente isso separado, não levar pra dentro da nossa organização, do nosso hospital."
Sobre a guerra entre Estados Unidos e Irã e as constantes ameaças do presidente Donald Trump, a general afirma que o Brasil precisa investir nos projetos estratégicos.
"Nós temos um país de dimensão continental, então uma área de fronteira muito grande. O próprio Exército tem um portfólio de projetos estratégicos, como o projeto da Força 40, de aparelhamento, que a gente quer adquirir até 2040. A gente tem que estar sempre pensando na nossa soberania. É nossa missão fazer a defesa da pátria", explica.
"Nosso Alto Comando, o Ministério da Defesa, eles pensam nisso e estão sempre preocupados em estarmos preparados para qualquer intempérie, qualquer imprevisto."
A íntegra vai ao ar hoje, às 14h, no Canal UOL.
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