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Encenação de deputada bolsonarista atrapalha o enfrentamento ao feminicídio

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20.03.2026

Encenação de deputada bolsonarista atrapalha o enfrentamento ao feminicídio

Enquanto familiares e vizinhos de Thamiris dos Santos Pereira, de apenas 14 anos, em desespero, entravam em matagais de Salvador para tentar encontrar a menina desaparecida há uma semana, a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL/SP) subia à tribuna, em horário de trabalho remunerado com dinheiro público, para apresentar uma encenação grotesca, que só atrapalha o enfrentamento ao feminicídio no Brasil.

Thamiris é mais uma vítima dessa epidemia que tornou a vida neste país tão perigosa para meninas e mulheres de todas as idades. Investigação da Polícia Civil da Bahia aponta que a jovem pode ter sido assassinada ao retornar da escola, por ordem de um traficante preso no mês passado por violência doméstica. Segundo a polícia, o homem acreditava que a menina havia acionado as autoridades para denunciá-lo e, por isso, teria ordenado o crime como vingança.

Fabiana Bolsonaro não subiu à tribuna para falar desse ou de tantos outros crimes hediondos que têm vitimado mulheres. No estado que representa, os crimes contra mulheres praticamente duplicaram. Em São Paulo, o número de vítimas de feminicídio aumentou 96,4% em 2025, na comparação com 2021. No ano passado, foram 270 mulheres mortas, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

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A fala da deputada também não abordou o crime cometido por um tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo, acusado de matar a esposa, uma soldado, e simular suicídio. Mais um caso que evidencia que não há segurança para a vida das mulheres, nem dentro de casa, nem mesmo em posições de destaque na sociedade e no mercado de trabalho.

Em vez disso, a deputada utilizou minutos preciosos de exposição para, com tinta preta no rosto, atacar a presença da deputada federal Érika Hilton na presidência da Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados. Eleita em 2022, a parlamentar se destaca por posicionamentos e iniciativas em defesa da vida de mulheres, cis e trans, tendo apresentado ao menos 26 proposições relacionadas aos direitos das mulheres, segundo levantamento da Agência Diadorim.

O conjunto reúne projetos de lei, emendas, sugestões orçamentárias e requerimentos apresentados desde o início do mandato. A maioria das iniciativas consiste em projetos de lei que podem alterar a legislação federal, abordando temas como violência de gênero, saúde reprodutiva, trabalho e reconhecimento histórico.

Entre elas está o PL 950/2023, que cria a chamada Licença Maria da Penha, prevendo afastamento remunerado para vítimas de violência doméstica.

Ainda segundo a Agência Diadorim, a parlamentar também atua na área da saúde, com propostas voltadas ao acesso à informação e aos direitos reprodutivos, à ampliação da proteção a vítimas de crimes sexuais e à garantia de atendimento especializado para mulheres transexuais e travestis no Disque 180.

No campo do trabalho, há iniciativas como a garantia de licença-maternidade em casos de parentalidade exercida por duas mulheres e a proteção contra demissão arbitrária de trabalhadoras que denunciem assédio sexual. Soma-se a isso o PL 665/2026, que institui a Política Nacional de Prevenção e Enfrentamento ao Transfeminicídio.

Já a PEC 08/2025, encabeçada por Érika Hilton (PSOL/SP), propõe o fim da escala 6x1, buscando reduzir a jornada para quatro dias semanais ou 36 horas. A proposta, que ganhou força popular, dialoga diretamente com a dignidade da mulher trabalhadora, sobretudo porque são elas as principais vítimas da dupla jornada, da sobrecarga e de ambientes laborais assediadores e violentos.

Ou seja, Érika Hilton reúne competências e dedicação política suficientes para exercer a presidência da Comissão da Mulher e contribuir para que o país avance na proteção às mulheres e no enfrentamento ao feminicídio.

Fabiana Bolsonaro, no entanto, prefere o ataque. Não apresenta alternativas, não dedica seu mandato à defesa das mulheres, nem mesmo o tempo na tribuna para tratar de vítimas como Thamiris. Sua atuação se concentra em estimular o ódio, confundir o debate público e fabricar uma falsa polêmica em torno da identidade de gênero da deputada.

Érika Hilton é mulher, se identifica como mulher e foi legitimada pela democracia brasileira com mais de 256 mil votos para defender os direitos de todos os cidadãos brasileiros, mas sobretudo das mulheres e, em especial, das mulheres trans, pois é nessa escala que a violenta se intensifica e, portanto, deve ser essa a prioridade da atenção das políticas públicas.

Não surpreende a postura de uma parlamentar vinculada a um partido que historicamente confronta políticas de direitos humanos, entre elas, aquelas voltadas às mulheres e à população trans, e que, quando esteve no poder, desmontou políticas sociais, desamparando mulheres, trabalhadoras e crianças.

A deputada ainda ostenta com orgulho o sobrenome da família que capitaneia essa política que já se mostrou antidemocrática e golpista, que se rearticula em torno de um projeto político baseado na ampliação do acesso às armas, na disseminação do ódio e na redução de direitos.

Tanto que a deputada não pareceu se incomodar com o fato da comissão responsável por discutir e elaborar políticas públicas para as mulheres na Câmara Municipal de São Paulo ser composta por sete integrantes homens e nenhuma mulher. Também se conformou silenciosa com a formação exclusivamente masculina da atual mesa diretora da Assembleia Legislativa de São Paulo, apesar das 25 deputadas eleitas, o que inclui ela própria, em um recorde de representatividade feminina na Alesp.

Apesar das acusações públicas, de racismo e transfobia, Fabiana Bolsonaro não cometeu crime ao simular um blackface na tribuna. Ao contrário, ela reafirmou sua condição de pessoa branca, com privilégios. O que ela fez foi uma utilização jocosa e desrespeitosa de uma pauta racial para ganhar visibilidade e engajamento nas redes sociais, prática recorrente em seu campo político.

O crime de blackface ocorreu anteriormente, quando nas eleições de 2020, ela se autodeclarou parda e teria recebido recursos do Fundo Eleitoral destinados a candidaturas negras, cerca de R$ 1.593,33, segundo a imprensa.

Logo a parlamentar que fez questão de se afirmar como mulher branca, que há mais de três décadas usufrui dos privilégios associados à sua condição racial.

Ou seja, enquanto acusa Érika Hilton, é ela quem atua contra políticas voltadas às mulheres e à população negra.

A confusão é deliberada. Serve para desviar o debate público e bloquear avanços em políticas de proteção a mulheres e outros grupos vulneráveis. Ao pintar o rosto de preto, a deputada instrumentaliza uma bandeira legítima para esvaziá-la.

Os movimentos sociais, de fato, defendem a representatividade e ela importa. É fundamental que quem ocupa espaços de representação tenha sensibilidade para reconhecer vivências, dores e desigualdades, transformando-as em ação política. Pessoas que enfrentam, na própria pele, o racismo, o machismo e a transfobia têm condições mais concretas de representar essas pautas.

Mas não é apenas isso. Trata-se, sobretudo, de compromisso, respeito e responsabilidade com as lutas que estão em jogo.

Nesse aspecto, Érika Hilton já comprovou ser legítima representante da luta das mulheres por dignidade e respeito. Enquanto que Fabiana Bolsonaro, junto com seu partido, remam contra a maré.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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