O jornalismo estava a dormir no sábado à tarde
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Recebo, por dia, umas dezenas de emails e aqueles que não são conteúdos comerciais procuro lê-los com mais ou menos atenção, devido ao tempo disponível. Esta semana, por coincidência, recebi dois que me chamaram a atenção, com o intervalo de uma hora e meia. O primeiro tinha o sugestivo título ‘Casa Palestina abre em Lisboa’, e adiantava: «No dia 27 de março, abre portas a Casa Palestina em Lisboa. Enraizada na memória coletiva, na prática artística e na vida comunitária, cria um espaço onde a prática artística e a memória coletiva palestinianas se reúnem, se transmitem e se afirmam (...) Esta casa não é neutra. Assenta em princípios de justiça, autodeterminação e continuidade cultural e no direito dos palestinianos de se representarem a si próprios».
Uma hora e meia depois, recebi um das Paróquias de Tavira, cujo título, mais longo, dizia: ‘Fé Sem Fronteiras: Igreja no Algarve Transforma Semana Santa em Epicentro de Integração Multicultural e Combate ao Preconceito’. Os ‘festejos’ serão todos em inglês, para facilitar a vida a quem não fala português, e esta iniciativa «insere-se no compromisso pastoral da Igreja Católica no Algarve, de acolher e integrar as diversas comunidades linguísticas presentes na região, proporcionando-lhes a oportunidade de celebrar a sua fé na própria língua. Mas vai muito além disso: é um trabalho vital para a integração das comunidades imigrantes. É um esforço ativo para facilitar a integração e quebrar o desconhecimento e o preconceito que ainda existem sobre e entre imigrantes».
Penso que esta singela comparação é bem ilustrativa do que se passa no Ocidente. De um lado, alguém que quer integrar e compreender as diferentes realidades – apesar de alguns anormais que não percebem a riqueza das diferenças –, do outro, o sectarismo e radicalismo, que assume que não é neutro e que quer impor as suas ideias.
Vem esta conversa a propósito de um dos momentos mais negativos, dos últimos anos, da comunicação social portuguesa. Um ‘monstro’ quis deitar fogo a bebés, crianças e adultos, só porque os adultos presentes na sala, leia-se manifestação, defendem que o aborto e a eutanásia devem ser ilegais. Incidente, sem qualquer chamada de capa, foi assim que, regra geral, o ato tresloucado foi descrito pela generalidade da imprensa. Repare-se que o ‘monstro’ só não matou ou queimou pessoas porque o cocktail molotov que atirou não deflagrou, apesar da sua tentativa.
Qual a diferença entre este ‘monstro’ e um ‘monstro’ do 1143, grupo neonazi? Eu não vejo nenhuma, mas sei que se o ‘monstro’ neonazi tivesse atirado umas garrafas de cerveja contra uma manifestação a favor da Palestina, e não estou a falar do dia 7 de outubro de 2023, teria aberto todos os telejornais e seria manchete dos diários. Como o ‘monstro’ atacou uns ‘pobres coitados’ que defendem as suas ideias de forma pacífica, a notícia não teve qualquer interesse, apesar de bebés terem sido atingidos com gasolina. Calculo que, no fundo, exista um certo receio de que ao noticiar-se esta barbaridade se dê gás aos neonazis.
Estou completamente em desacordo, pois a comunicação social só tem razão de existir se for para fazer um retrato completo da sociedade, não tomando partido por este ou por aquele. Deve sim, fazer um retrato da realidade. Quem quer ‘fazer’ uma realidade abstrata que se dedique às redes sociais, ou que escreva opinião – como é este o caso, pois não estou a fazer uma notícia.
O extremismo está a tomar conta da sociedade e muitos dizem barbaridades dos manifestantes da Marcha Pela Vida – pessoas, na sua maioria, católicas, que acreditam no bem supremo da vida e que não fazem mal a ninguém – esquecendo que em 1998 o primeiro referendo deu a vitória ao Não, recusando-se então a legalização do aborto. Mais de dois milhões e setecentas mil pessoas foram votar. Irritados com o resultado, os defensores do aborto voltaram à carga e, em 2007, houve novo referendo._Desta vez, mais de três milhões e oitocentas mil pessoas foram revelar a sua vontade nas urnas. Ganhou a legalização do aborto. Para que fique claro, votei Sim das duas vezes e voltarei a votar se existir um novo referendo, algo que duvido, pois a ditadura de esquerda nunca o permitirá. E também votarei, num hipotético referendo sobre a eutanásia, favoravelmente. Respeitando sempre quem pensa diferente. A isso chama-se democracia. Umas vezes ganhamos, outras perdemos, mas os grunhos dos Antifas e dos 1143 não aceitam isso. No fundo, são almas gémeas.
P. S. E o que dizer do autor do ‘crime’ ter ficado em liberdade, com a obrigação de se apresentar diariamente numa esquadra? Alguém consegue explicar como é que um homem que não matou bebés e crianças porque, supostamente, falhou a ignição do cocktail molotov, continua em liberdade? E a história de não poder frequentar a rua onde lançou o cocktail molotov é hilariante. Já agora, qual a razão para a Justiça não ter justificado esta medida estrambólica?
