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Sensacionalismos

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07.03.2026

O episódio ocorrido em Coimbra com a autarca Ana Abrunhosa e o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, fez correr muita tinta. Poderia ter sido, apenas, um epifenómeno saldado por um abraço conveniente entre os dois protagonistas, não fosse a cobertura sensacionalista do caso.

O que sucedeu? O ministro da Agricultura dirigiu-se ao Mondego para falar com agricultores e cooperativas. Cumpriram-se as normas protocolares e os autarcas foram avisados do propósito da visita e do seu horário. A presidente de Câmara – que, querendo estar presente, deveria, por deferência, ter aguardado pelo ministro – atrasou-se significativamente. Este, não sabendo se a autarca iria comparecer, resolveu não adiar a conversa, até porque tinha outra reunião em Leiria. Então, falou com os seus interlocutores sobre a reparação em curso do dique e ouviu os agricultores.

Quando prestava as habituais declarações à comunicação social, eis que chegou a autarca, que se mostrou escandalizada por o ministro estar a falar aos jornalistas sem a sua presença. Fê-lo em termos desadequados, confundindo legitimidade e autoridade. Desde logo, porque o poder conferido aos autarcas não limita a ação do Governo. Uma autarquia não é o latifúndio do seu edil ou um condado medieval.

Sucede que este ministro é uma pessoa cordata e experiente, e apaziguou a situação. Ana Abrunhosa, que elogiei por ter estado à altura das circunstâncias e com quem partilho uma visão descentralizada do Estado – e que já foi ministra, como salientou –, admitiu que «exagerou». Imagino que estivesse cansada e perdeu o autocontrolo, coisa que a todos pode suceder em situação de stress. Não foi um exagero: foi um erro, e Abrunhosa não tem razão quando diz que o ministro chegou com uma semana de atraso. Não fazia sentido fazer a visita ou falar com os agricultores lesados em plena cheia.

Nada disto, sendo evitável, teria relevância, apesar de ser invulgar que um momento de tensão entre dois responsáveis políticos ocorra perante jornalistas. O caso ganhou impacto pela forma como a comunicação social fez a cobertura do episódio, começando por omitir as circunstâncias que acima elenquei e que não podia ignorar. Os títulos no online, publicados quase de imediato, caucionaram a bravata. Podia ler-se: «Se veio fazer uma conferência de imprensa, vamo-nos embora: Ana Abrunhosa confronta ministro da Agricultura que falava com os jornalistas».

Ora, os jornalistas estavam no local, conheciam o propósito da visita, testemunharam o atraso, sabiam que não estava em curso uma conferência de imprensa e tinham visto o ministro falar com os agricultores e com os autarcas de Soure e Montemor-o-Velho. Mais: esses mesmos jornalistas teriam levado a mal se José Manuel Fernandes se recusasse a responder às suas perguntas. Em suma, a cobertura do caso foi sensacionalista porque priorizou a emoção e o escândalo em detrimento da objetividade e da verdade.

Temos assistido à generalização deste estilo. Cada vez mais, os meios de comunicação usam títulos chamativos e manchetes exageradas para atrair a atenção do público (clickbait), mesmo que isso signifique distorcer ou exagerar a realidade. O problema é que isso incita o populismo e a demagogia e abastece as redes sociais, cada vez mais intolerantes, frequentadas por matilhas de ignorantes e indignados que reagem a quente, num histerismo que tudo condena. Só por isso é importante que a comunicação social seja responsável. Se insistir em cair na tentação sensacionalista, tornar-se-á irrelevante e acabará por ser a maior vítima da decadência do Estado de Direito.


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