The next big thing
Se não fosse o ataque dos EUA e de Israel ao perigoso regime fundamentalista e ditatorial do Irão, podíamos estar perante o facto consumado de na última semana a agenda mediática ter sido dominada por Pedro Passos Coelho. Se houvesse uma corrida eleitoral – mesmo interna do PSD – isso até poderia parecer normal e natural mas não é. Há anos, após ter ganho às legislativas e ter sido fintado mesmo assim pela solução criativa da ‘geringonça’ tecida por António Costa, decidiu sair de cena.
Remeteu-se ao silêncio – pontificado por uma ou outra intervenção discreta – dedicou-se a dar aulas e a acompanhar o crescimento das suas filhas.
Podia estar como gestor ou consultor de empresas ou a receber avenças se presidisse a alguma assembleia geral das mesmas. Não o fez. Nunca foi esse o seu caminho, bem como no passado também não tinha aceite qualquer ligação ou prebenda do grupo BES, por muito que Ricardo Salgado o tentasse quando já se augurava que ele seria The Next Big Thing do PSD. Seguiu uma linha granítica, ascética, frugal.
Em uma semana as suas palavras desencadearam vagas revoltas, despertaram uma tempestade que assustou os palerminhas do costume do politicamente correto, mas também criaram desconforto no Governo. A prova disso é a resposta do melhor gladiador de Luís Montenegro, Hugo Soares, que se apressou na defesa – porém com respeito – e a tentar desvalorizar as críticas do ex-líder.
A verdade é que Pedro Passos Coelho – como há muito esclareci na antena da CNN – tem uma força única numa possível agregação da direita. É simples de observar: se quisesse ter sido candidato presidencial, seria levado em ombros por PSD e CDS e nem André Ventura nem Cotrim de Figueiredo teriam avançado. Naquele homem recatado em Massamá, existe uma substância rara de profundidade no pensamento político que hoje não fazem parte do cardápio de quem gere pela espuma das ondas. Há autoridade – palavra tão desprezada – há respeito, há solidez e igualmente compromisso.
Tenho a convicção de que está na reserva e não virá dele qualquer afã de apear Luis Montenegro que é inquestionavelmente, no poder, o líder de facto do centro direita com duas vitórias em legislativas e um formidável triunfo nas autárquicas. Contudo, vai andar por aí, com um discurso reformista que por um lado mexe nos interesses instalados de muitas corporações e por outro não é popular em diversos temas (saúde e segurança social) para a opinião pública. Mas é a vida e Pedro Passos Coelho tem direito às suas convicções e a um caminho reto que desde sempre traçou com muito pouco jogo de cintura.
Como uma multidão já percebeu, poderá ser The Next Big Thing da direita portuguesa. Dizia António
(o desavindo de Próspero)
na Tempestade de Shakespeare: «O passado é prólogo».
