Foi o melhor e o pior Festival da Canção do ano
O melhor é sempre a Filomena Cautela e o Vasco Palmeirim, preferivelmente juntos, umbilicais, inseparáveis. As duas semifinais, apresentadas a solo por ambos nas semanas anteriores, foram sofríveis em termos de talento musical e espectáculo televisivo, e o facto de Palmeirim e Cautela terem estado sozinhos em palco não ajudou a salvar as audiências. Todos os anos a final do Festival da Canção depende deles, principalmente este ano, por ser um evento tão dominado pela polémica do boicote que alguns países optaram por fazer à Eurovisão, e também por alguns artistas portugueses terem antecipadamente anunciado que, caso ganhassem, iriam boicotar a Eurovisão.
Como sempre, o “grande musical de abertura” de Palmeirim e Cautela foi bom, a dupla começou precisamente com essa ideia de que o festival está debaixo de fogo, há “um assunto” e um “elefante na sala” que precisa de ser abordado com coragem, levando a acreditar que a RTP tinha dado carta branca aos seus apresentadores para falarem do boicote, mas afinal o elefante na sala era o 69º aniversário da RTP, como é que vamos brincar com um número tão dado ao humor e à marotice, acho que a RTP descalçou bem esta bota..
Os novos co-apresentadores Catarina Maia e Alexandre Guimarães não são maus, mas também não acrescentam nada. Saudades do Wandson, do Malato, da Inês Lopes Gonçalves, e até do Eládio Clímaco, bolas.
Tendo em conta que este ano os finalistas foram 10 e não 12 (ninguém nos explicou porquê, mas pode ter sido por falta de qualidade), o alinhamento das canções foi mais rápido que o habitual, o que significa que a RTP depois teve de encher chouriços com quase duas horas de conteúdos, tudo isto justificado pela habitual desculpa de que “é preciso dar tempo aos portugueses para votarem”, quando é evidente que os portugueses tiveram toda a semana para votar, não havia necessidade de prolongar esta agonia em directo.
Excelente a performance dos Throes + The Shine com Samuel Úria, Selma Uamusse e Catarina Salinas, mas noutro palco, noutro festival, noutro dia, por favor. Tudo isto me pareceu demasiado indie até para mim, que sou indie. Aliás esta é uma das críticas que, ano após ano, faço sobre o Festival da Canção, essa ideia de que é um festival de poucos para quase nenhuns. Aquele ponto de viragem há dez anos, em que a RTP decidiu apostar em talentos de novas gerações, nunca esquecendo a presença de clássicos superlativos, como Simone de Oliveira ou Maria João, resvalou para uma espécie de Sequim de Ouro versão indie, desapareceu a arcádia, reduziu-se a diversidade, é verdade que este ano ainda houve bossa nova, fado, cante alentejano, mas pareceu tudo tirado do catálogo da Temu.
Muito bem apanhada, e especialmente este ano, aquela rábula com alguns dos artistas famosos que já passaram pelo Festival da Canção e nunca o conseguiram ganhar, foi giro ver Marco Rodrigues e Carolina Deslandes a aderir ao humor e fairplay, lamentando-se da sua triste sina. A cereja no topo do bolo foi obviamente a presença de Iolanda na mesma peça: “mas porque é que me chamaram para isto?”
A generalidade das canções foi a pior desde há dez anos a esta parte. Muitos dos artistas anunciaram um boicote à Eurovisão em Viena caso ganhassem o Festival da Canção. O que me parece é que muitos dos artistas portugueses, independentemente de poderem vir a ganhar ou não, decidiram logo “boicotar” o Festival da Canção através de um alinhamento musical com canções medíocres, letras banais, arranjos inexistentes.
Este sistema de votação de júris regionais está completamente ultrapassado, ainda não consegui perceber qual é a solução ideal, mas, como escrutínio, parece-me muito arbitrário e pouco transparente: por regra os júris são compostos por apenas três pessoas em sete regiões do país, cada vez que há um artista do Algarve sabemos que vai receber os 12 pontos do júri do Algarve, isto parece uma brincadeira provinciana que acaba sempre como uma espécie de conflito regional em que todos perdem, a começar pela credibilidade do festival. Também me incomoda aquela ideia de a RTP supostamente estar a ligar para os seus júris regionais, quando sabemos que eles estão todos ali em estúdio ao lado, e são farinha do mesmo saco.
Igual dilema para o júri escolhido para as semifinais, profissionais com anos de experiência no setor, mas aos quais depois não é exigido qualquer argumento sobre o contexto das suas escolhas.
Não compreendo que a RTP, sabendo que é preciso prolongar a emissão para garantir audiências, não consiga explorar a revelação dos votos atribuídos pelos júris regionais, é sempre a parte mais animada da noite em praticamente todos os festivais nacionais que concorrem à Eurovisão, todos os anos assisto a uma dúzia destes festivais, e muitos dos países permitem inclusivamente que júris internacionais votem em artistas nacionais: ou seja, seria como ter Espanha, França, Luxemburgo a votar na nossa final. Isto não só poderia garantir uma maior abrangência e internacionalização do nosso festival, como antecipadamente podíamos conhecer o escrutínio e feedback de júris estrangeiros sobre as nossas músicas sem o habitual caciquismo inerente às escolhas dos júris regionais portugueses.
O Festival da Canção como produto televisivo foi muito fraco. Como portugueses, como espectadores, como contribuintes, como fãs de festivais, podemos questionar as opções da RTP em não boicotar a Eurovisão, como fez Espanha, Irlanda, Eslovénia. Não se compreende é que, ao não boicotar, a RTP depois apresente este espetáculo triste, desinspirado, de saldo. Também não consegui compreender se a RTP desistiu deste festival por ter um alinhamento tão fraco, se o alinhamento foi fraco precisamente porque a RTP parece ano após ano desinvestir na sua galinha dos ovos de ouro.
Por estranha coincidência, os Bandidos do Cante, que eram um dos poucos artistas que anunciaram não boicotar a Eurovisão, roubaram a noite e venceram o Festival da Canção. Muitos disseram que a posição política dos Bandidos de não boicotarem a Eurovisão garantia a sua vitória no Festival da Canção. O que me parece é que, num ano tão mau, uma canção mediana como a deles garantia sempre uma vitória antecipada. Aliás, a surpresa da noite foi, durante algum tempo, ter chegado a haver a ideia de que a canção de João Ribeiro e Cristina Branco, vencedora da escolha dos júris regionais, pudesse ganhar isto.
Os Bandidos do Cante são livres de ir à Eurovisão, e até podem alegar que a sua posição é apenas “musical e não política”, mas alguém se irá aproveitar politicamente da presença dos Bandidos do Cante na Eurovisão. Porque a Eurovisão sempre foi um local onde os atos políticos eram toleráveis e até aconselháveis, quando ainda era digno ter actos políticos, como se viu no caso recente do boicote da Eurovisão à Rússia, e do apoio concreto dado às canções ucranianas, sempre favoritas por evidente empatia política. A grande virtude da Eurovisão sempre foi a liberdade artística, não necessariamente a agenda política, e essa liberdade permitia que o festival fosse político quando era preciso ser político, e não fosse político quando não houvesse necessidade de o ser. Mas a Eurovisão também sempre viveu a atualidade e o “aggiornamento”, sempre acompanhou o espírito dos tempos. O que acontece agora é a Eurovisão dizer que não é política, quando na realidade vive numa bolha eminentemente política, blindada por uma série de critérios políticos enviesados e ambivalentes que tornam o exercício da liberdade e criação da arte absolutamente intoxicantes e irrespiráveis. E isso nem o perfume da Rosa dos Bandidos do Cante conseguirá alterar.
