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A TVI está a ficar quota?

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28.02.2026

Vestido de Sydney Sweeney destaca-se em noite de gala

Timeline Globos de Ouro, minuto a minuto, a gala das galas, a festa das festas, os toys do Toy, domingo passado na SIC

TVI volta a liderar em setembro nas audiências

Como trabalhei uns valentes anos na TVI, sei o que é ser convidado para uma gala de aniversário da TVI, sentar-me com colegas e amigos à mesa do salão preto e prata no Casino Estoril, regalar-me com a refeição que consta do menu da noite, e assistir, com o devido distanciamento de segurança, ao espetáculo de quase quatro horas de emissão que a TVI serve em traje de gala para entreter as pessoas ‘lá em casa’.

Mas, ao longo deste anos, muito raramente tive a oportunidade de mudar os papéis e passar para o lado de cá, ou seja, sentir na pele o que é ser espetador da gala de aniversário da TVI, e ficar em casa sóbrio, lúcido, às claras, a assistir de seguida a uma hora de passadeira vermelha, quatro horas de gala, e mais uma hora de after party da festa de aniversário da TVI. Ou seja, é como atravessar Portugal de carro lés a lés, de Valença a Vila Real de Santo António, sempre com a gala de aniversário da TVI ligada, sem parar para abastecer, fazer chichi ou esticar as pernas, imaginem o estoiro que é, já deixei o Minho para trás e a gala ainda nem começou, a Mónica Jardim está agora na passadeira vermelha a dizer ao Paulo Pires que ele é um ‘belíssimo cabide’.

Garanto-vos, fiquei cheio de saudades dos tempos idos em que bastava um jarro de vinho da casa para aguentar uma gala da TVI até ao fim e me convencer de que, na minha perspetiva, tudo aquilo era absolutamente maravilhoso. Era, talvez fosse, talvez ainda seja, mas visto de casa não parece. Talvez seja da minha idade, talvez seja da idade da TVI.

Portanto, recapitulando, uma hora de passadeira vermelha com Mónica Jardim, Iva Domingues, Rafaela Granado e João Montez, todos eles sem falhas, boa articulação e harmonia entre si, raramente se pisaram uns aos outros, a Cristina Ferreira foi a primeira a ser entrevistada, pavoneou o seu vestido, e seguiu dali para fora como se fosse a Cinderela, muitos elogios mútuos, e ninguém comentou o penteado do jovem João Montez, que agora parece o Fernando Pereira.

No geral, foi uma espécie de flash interview sem graça, tudo muito previsível, tudo na bolha, ninguém gritou ‘Viva a Palestina!’ ou ‘Montenegro rua’”, falou-se de looks e de likes, e os famosos aproveitaram o tempo de antena para fazer publicidade aos autores das farpelas com que alguns deles vinham vestidos e até despidos:

Isaque Alfaiate e Maria Cerqueira Gomes arrasaram, ambos com decotes maiores que o buraco da A1 em Coimbra, a Rita Pereira surgiu em registo gótico de Ermesinde, trazendo um visual com mais cruzes que um boletim do totobola, Cláudio Ramos, sempre um boca-podre, confessou que trazia ‘um blazer reciclado de galas anteriores’, o que de certa forma acabou por fazer pandã com o tipo de gala reciclada que nesta noite os portugueses lá em casa vieram a assistir.

A gala propriamente dita abriu com os dois extremos da TVI no mesmo sofá, de um lado José Eduardo Moniz, a identidade suave, clássica e soberana da estação, do outro lado Cristina Ferreira, em representação da TVI exultante, excitante, gritante, ambos com um discurso sobre as diferenças que existem entre ambos e a forma como essa diversidade pode ser garantia de melhor televisão lá em casa. Boa malha.

Muito boa igualmente a transição da cena do sofá com Moniz e Cristina para a entrada de Manuel Luís Goucha em palco, antes de começar a cantar, perdão, a desafinar o tema de Anselmo Ralph que serviu de inspiração para a gala, sobressaindo o refrão ‘a TVI está a ficar cota!’, que a sala em apoteose replicou como mantra da noite.   

 Manuel Luís Goucha logo a seguir disse que ‘a festa hoje não tem idade’, mas o envelhecimento da TVI, um canal nascido em 1993, acabou por determinar o rumo da noite de celebração dos seus 33 anos, uma noite em que a TVI tentou cruzar gerações e seduzir avós, pais e netos, mas que aos poucos acabou por alienar o interesse da generalidade do público lá em casa. Uma exceção terá sido a ‘notícia de última hora’, informando que o ator Ruy de Carvalho ainda estava vivo, muito bem visto. Menos conseguida, a rábula do João Patrício de férias envolvendo o Polígrafo, achei demasiado forçado e sem graça, não me parece que houvesse necessidade de destacar a ausência de uma figura da qual ninguém tinha sentido a ausência, a não ser que fosse para mentir sobre essa ausência (daí a necessidade do Polígrafo).

O processo de desfasamento da TVI para com o seu público começou cedo, no discurso do CEO da Media Capital, Mário Ferreira, um bom discurso sobre liderança e arregimentação, sobre futuro e transformação, mas um discurso muito virado para os acionistas e muito pouco para os pensionistas que estariam a ver a gala lá em casa. Pelos vistos, a TVI não só está a ficar cota, como está a ficar quota.

E os exemplos repetiram-se: Cláudio Ramos, respondendo à coscuvilhice de Ana Guiomar, disse que ‘isto é uma empresa, não um reality’. Maria Cerqueira Gomes, provocando Paulo Pires: ‘a festa da minha firma é a melhor’. Cristina Ferreira, mais à frente, acrescentou que ‘somos uma equipa, dos acionistas e de técnicos’, e durante a noite falou-se de novos projetos do grupo empresarial, do qual se destaca o megalómano Media City, uma espécie de novo aeroporto que o canal há longos anos ambiciona construir para expandir as suas instalações e concretizar os seus ‘sonhos de menino’.

Portanto, o que se propunha ser uma noite de celebração em família com os portugueses, acabou aos poucos por transformar-se numa espécie de festa de empresa com karaoke, paintball, shots de Safari, e muitas palmadinhas nas costas. Como entretenimento, o espetáculo televisivo foi-se gradualmente fechando numa caixa de ressonância na qual a ‘firma’ apenas ouve a sua voz e o eco do seu próprio sucesso, repetindo o discurso dos números, das audiências, mas não do retorno e da responsabilidade social.

Houve momentos pontuais dedicados à guerra da Ucrânia, e até à tragédia das inundações recentes, mas tudo em registo toca-e-foge, o enfoque foi sempre na TVI como farol de rigor e lugar de fala, não nas vítimas que, numa noite como a destas, deveriam ter sido dignamente recordadas e até recompensadas. Os inevitáveis 300 mil euros em cartão que Cristina Ferreira ofereceu na véspera pareceram frugais se comparados com o papel que a TVI pode e consegue desempenhar na vida de tantos portugueses em dificuldades.

Quando, no fecho da gala, às tantas da noite, José Eduardo Moniz veio apresentar a nova marca de solidariedade da Media Capital, TVI Por Si, tudo aquilo pareceu uma espécie de televendas, não só já era demasiado tarde para a TVI estar a vender conceitos, como provavelmente a maioria dos espetadores em casa já teria desligado o televisor ou adormecido a meio da emissão. Enquanto a TVI falava por si, os portugueses tinham pensado por eles.


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