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O modelo económico português está a produzir riqueza?

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20.02.2026

Uma economia pode crescer durante anos sem alterar verdadeiramente a sua posição no mundo. Pode produzir atividade, gerar receitas, equilibrar contas e acumular ciclos positivos – e ainda assim não ganhar escala, influência ou capacidade estrutural de convergência, permanecendo estruturalmente limitada. Crescer não é o mesmo que subir na hierarquia económica.

Nos últimos anos crescemos acima da média da zona euro, apresentámos excedentes orçamentais e reduzimos o desemprego. À superfície, a narrativa é de consolidação. Mas quando analisamos a nossa posição relativa na União Europeia, a distância não encurta. Crescemos. Mas não convergimos.

Em 2000, o PIB per capita português representava cerca de 85 % da média da União Europeia; nos anos recentes tem oscilado entre 78 % e 82 %. Crescemos em termos absolutos, mas afastámo-nos em termos relativos.

Este é o paradoxo central do modelo económico português: há atividade, há fluxo, mas a acumulação estrutural permanece limitada.

A questão deixa de ser conjuntural e torna-se estrutural: está o modelo económico português a produzir riqueza ou limita-se a gerar fluxo?

Fluxo económico é atividade visível – crescimento do PIB, receitas fiscais, consumo, turismo. Riqueza estrutural é algo mais exigente: capital produtivo acumulado, empresas com escala internacional, eficiência elevada e salários sustentados por valor acrescentado.

Portugal tem capacidade para gerar fluxo. O problema é que esse fluxo não se converte, de forma consistente, em acumulação. A razão atravessa duas décadas praticamente inalterada: produtividade.

Sem ganhos consistentes de produtividade, nem os salários nem os lucros empresariais crescem de forma sustentada. A capacidade de poupança interna permanece limitada e o investimento transformador tende a depender de crédito ou de fluxos externos. Uma economia que não gera excedente suficiente dificilmente acumula capital de forma autónoma – e sem acumulação sustentada a convergência torna-se improvável.

Gerar mais valor não é intensidade de esforço nem compressão salarial. É capitalização, tecnologia, escala, competências e organização. É a capacidade de combinar estes fatores ao longo do tempo de forma consistente e previsível.

Por isso, este é um tema estrutural. Não se resolve com um ciclo económico favorável nem com um orçamento anual. Exige estabilidade regulatória, incentivos coerentes e continuidade estratégica. Implicaria um compromisso alargado que sobrevivesse às alternâncias governativas. Porque a produtividade não reage a anúncios – reage a décadas de consistência.

As implicações vão além das empresas. Sem uma base produtiva mais robusta, o Estado tende a reforçar receita sobretudo através da carga fiscal ou de ajustamentos conjunturais, em vez de através do alargamento estrutural da base económica. A Segurança Social permanece pressionada num contexto demográfico adverso. E os jovens mais qualificados continuam a procurar contextos onde o seu trabalho gera maior valor e maior remuneração.

Mais de 95 % das empresas portuguesas são microempresas. A fragmentação excessiva limita capacidade de investimento em inovação, internacionalização e capital humano avançado. Empresas de pequena escala conseguem adaptar-se. Mas dificilmente conseguem liderar cadeias de valor complexas ou sustentar aumentos significativos de produtividade.

A questão liga-se também à complexidade económica – à capacidade de produzir bens e serviços tecnologicamente sofisticados, integrados em cadeias globais de maior valor acrescentado. Economias mais complexas acumulam conhecimento, geram especializações avançadas e criam círculos virtuosos de inovação. Economias menos complexas multiplicam valor com maior dificuldade.

A Irlanda – apesar das especificidades estatísticas associadas ao peso das multinacionais no seu PIB – reformulou profundamente a sua base produtiva. A Polónia convergiu rapidamente a partir de um ponto de partida inferior ao português. A República Checa consolidou uma integração industrial sofisticada com a Alemanha. Nenhum destes países prosperou por acaso. Fizeram escolhas estratégicas consistentes, reforçaram escala empresarial e criaram enquadramentos estáveis que favoreceram investimento de longo prazo.

Portugal manteve uma estrutura produtiva menos intensiva. São setores competitivos e relevantes, mas insuficientes para produzir um salto estrutural. O problema não é falta de talento nem de empenho. É a arquitetura do modelo: estrutura empresarial fragmentada, escala limitada, incentivos desalinhados e uma cultura que privilegia a estabilidade da sobrevivência em vez da ambição da transformação.

Um país pode viver durante décadas com baixa eficiência estrutural. Ajusta expectativas, normaliza salários médios e celebra estabilidade. Mas prosperidade duradoura exige ganhos sustentados de produtividade e acumulação estratégica. Sem transformação estrutural, há apenas fluxo. E fluxo não altera hierarquias.

E talvez o maior risco não seja o fracasso económico, mas a acomodação estrutural. Não basta gerar atividade; é imperativo gerar valor.

A escolha é simples, mas exigente: ou continuamos simplesmente a existir ou assumimos a ambição de reformar e produzir riqueza. Esta escolha definirá o lugar que ocuparemos na Europa e no mundo nas próximas décadas. A verdadeira escolha não é entre crescer e estagnar. É entre crescer e convergir.

Secretária Geral Sedes


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