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Carneiro sem rebanho

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13.03.2026

O Partido Socialista vai a votos neste final de semana para reeleger José Luís Carneiro como secretário-geral para o próximo biénio. Sem opositor na corrida, a dúvida que subsiste é a afluência às urnas, ou seja, a capacidade de mobilização e o entusiasmo que gera José Luís Carneiro junto dos militantes e simpatizantes inscritos no partido.

O impacto interno e externo que a campanha teve – com salas muito pouco concorridas e um mediatismo quase nulo – não augura grande motivação para a votação. E nem o facto de se realizarem em simultâneo as eleições dos delegados ao Congresso de 27 a 29 deste mês atenua a ameaça abstencionista – a reunião magna em Viseu terá menos delegados do que congressos anteriores e, por isso, também menos candidaturas e menos disputas internas.

O exemplo do que aconteceu há uma semana nas eleições para as estruturas locais, concelhias e distritais, do PSDtambém é tudo menos auspicioso: como escreveu Leonardo Ralha no DN desta quarta-feira, 43 concelhias não conseguiram eleger os respetivos órgãos dirigentes. Sendo que o PSDdetém o poder central (Governo), regional (Açores e Madeira) e a maioria das câmaras municipais e das juntas de freguesia – inclusivamente, em sete concelhos liderados por sociais-democratas nem sequer houve listas de candidatos, como Castelo de Vide, que acolhe todos os anos a Universidade de Verão do PSD que assinala, com a tradicional festa do Pontal, a rentrée laranja. Também em Montalegre, o líder cessante da concelhia foi entregar as chaves da sede local na distrital.

Se é assim num partido que está no poder, o cenário só pode piorar num partido que está na oposição, ainda por cima tendo perdido umas boas dezenas de câmaras – algumas das quais entre as maiores do país – nas últimas autárquicas.

Dir-se-á que são as consequências da crise dos partidos convencionais (e parte do sucesso dos novos partidos) ou, sobretudo, das velhas estruturas partidárias, que, no século passado, funcionavam como ponto de encontro e de convívio entre militantes e simpatizantes e centro de troca de informação. Mas hoje tornadas obsoletas (e desertas) com a massificação da internet e, principalmente, das redes sociais.

José Luís Carneiro foi criticado internamente pela colagem e tentativa de aproveitamento da vitória de António José Seguro nas ainda tão recentes eleições presidenciais, ao convocar diretas e congresso do PS sem dar tempo nem possibilidade para a eventual construção de uma alternativa.

Porque, efetivamente, não existe. Quem quer, não pode (é o caso, por exemplo, de Fernando Medina, que não tem tropas). Quem pode, não quer (é o caso de Duarte Cordeiro, para quem, manifestamente, este não é o tempo de avançar).

A verdade é que a vitória de António José Seguro não pode deixar de dar alento ao PS, sobretudo pelas fragilidades evidenciadas pelo PSD– primeiro, pela copiosa derrota do seu candidato; depois, pela assumida entrega da liderança do espaço político à direita a André Ventura.

Por outro lado, as brechas igualmente abertas pela reação de Luís Montenegro, Hugo Soares e outros dirigentes nacionais e locais do PSD às críticas de inação e falta de espírito reformista do Governo publicamente reiteradas por Pedro Passos Coelho também jogam a favor de José Luís Carneiro.

O secretário-geral socialista precisa de tempo para continuar a arrumar a casa, para fazer esquecer os erros da ‘geringonça’ e de oito anos de imobilismo costista, para substituir as elites do partido – apeando a corte que se instalou no Largo do Rato na última década –, para redefinir uma estratégia e um projeto para o país e para se confirmar como alternativa de poder e não como mero líder de transição.

Porém, bem pode ir dizendo, como no título (Contamos Todos) da moção, que todos contam. 

Faltam-lhe tropas. Na base, mas não só. Num país com longa tradição de carneiradas, o líder socialista ainda continua demasiado sozinho e desamparado ou fechado no seu ‘núcleo duro’, qual carneiro sem rebanho. Se é o bastante, por agora, para resistir no plano interno, é manifestamente insuficiente para crescer no país. Para isso, e para se afirmar com um projeto de alternativa, precisa de tempo.

Ora, com Seguro e Montenegro a apostarem em levar a legislatura até ao fim – falam ambos num horizonte temporal de três anos e meio sem eleições nacionais –, Carneiro tem esse tempo. Não o pode é desperdiçar.

mario.ramires@nascerdosol.pt


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