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Infraestruturas críticas em Telecomunicações

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As consequências da tempestade Kristine, e das outras que se seguiram, na zona centro do país, voltaram a colocar as redes de telecomunicações debaixo dos holofotes. Milhares de pessoas ficaram sem energia elétrica e sem comunicações e, devido à enorme devastação que as infraestruturas de suporte das redes que estão associadas a estes dois serviços essenciais sofreram, o restabelecimento total está a demorar semanas. Já uns meses antes, o “apagão” tinha mostrado quão importantes são estas infraestruturas. Então, porque acontece isto e porque a recuperação não é imediata?

As redes de telecomunicações são de facto infraestruturas críticas, isto é, fornecem serviços essenciais ao funcionamento da sociedade, e devem estar preparadas para a existência de fenómenos disruptivos que perturbem o seu funcionamento. O que está em causa é a fiabilidade destas redes, isto é, a capacidade de funcionarem sem falha por um certo período em certas condições. Normalmente, a fiabilidade pode medir-se através de dois conceitos: robustez e resiliência.

O exemplo que se costuma dar para perceber a diferença entre robustez e resiliência é o de um combate de boxe: robustez mede o tempo que o atleta luta até cair e resiliência mede o tempo que o atleta demora a levantar-se depois de cair. No caso das redes de telecomunicações, a robustez reflete a capacidade de uma rede funcionar sem falha num conjunto vasto de condições, medindo-se, por exemplo, pelo tempo de funcionamento depois do evento disruptivo e pelo tempo médio entre falhas; a resiliência mostra a capacidade de uma rede recuperar ou adaptar-se a danos de eventos não previstos, medindo-se, por exemplo, pelo tempo de recuperação depois do evento e pelo tempo médio de reparação.

As entidades envolvidas na operação e manutenção das redes de telecomunicações podem ser separadas em três grupos: os operadores das redes, que gerem as redes e são os últimos responsáveis pelo seu funcionamento; os fabricantes de equipamentos, que os fornecem aos operadores, e que são essenciais para a sua substituição ou reparação em caso de falha; os instaladores de infraestruturas, que montam os equipamentos e fazem a manutenção e reparação das infraestruturas físicas que os suportam. O “ecossistema” que tem de responder em caso de falha inclui assim um conjunto vasto de empresas.

O reconhecimento das redes de telecomunicações como infraestruturas críticas parece ser óbvio. Também aqui, existem parâmetros que podem ser usados para fazer esse reconhecimento, como por exemplo: quota de mercado, como é o caso de uma rede com dimensão nacional servindo milhões de clientes; impacto da falha de serviço, que se pode estender a toda a rede ou ser parcial, em termos geográficos ou de serviços; clientes críticos, que é o caso de operadores servindo entidades críticas, como o INEM ou a ANEPC.

O que falta então é um reconhecimento desta realidade pelas entidades que têm responsabilidades na área, identificando todos os intervenientes, estabelecendo planos para todos os cenários de emergência possíveis (através de um conjunto de análises “e se”, por muito remotas que a sua ocorrência possa parecer, e analisando o passado destas ocorrências), testando a viabilidade desses planos, e atualizando esses planos com regularidade. Em paralelo há um trabalho de identificação das fragilidades das redes atuais, em todas as suas dimensões, e das soluções para os problemas identificados.

Finalmente, entra a componente económica. Aumentar o grau de robustez e resiliência das redes requer investimentos avultados, que dependem do grau de exigência que se pretende atingir. As redes de telecomunicações comerciais não têm o mesmo grau de exigência das redes de emergência e segurança, pelo que os respetivos investimentos serão seguramente diferentes. Por outro lado, não se pode criar um paradigma de preços o mais baixo possíveis para os consumidores, e esperar que os operadores mantenham níveis de investimento nas redes elevados. A escolha entre a qualidade e a quantidade foi sempre complicada!

Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa


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