Tempo de perguntas
O que é o PSD hoje? O caminho que a política portuguesa vai seguir, nos próximos anos, dependerá muito da resposta que for dada à pergunta. É difícil, até mesmo para quem acompanha, com atenção profissional, o que se passa nos corredores do Poder e nos meandros partidários, encontrar uma resposta clara. O PSD é uma força política que traçou a sua história na convivência, nem sempre pacífica, de correntes contraditórias, tanto de militância como de conceitos de sociedade.
De Sá Carneiro a Luís Montenegro, o percurso de meio século conheceu praticamente de tudo. Já viveu períodos de unidade e suportou fraturas, já se vergou à vontade do líder e já se partiu, quando a fragilidade da sua Direção deu azo ao atrevimento de baronatos internos.
A indefinição estratégica, entre a direita e a esquerda moderada, se constitui óbvia fraqueza, é também, o combustível que lhe tem emprestado força enquanto partido com vocação de governo.
Neste momento, o atual PSD, que existe apenas como apêndice do executivo de Montenegro, está na zona cinzenta, que lhe permite agir de uma determinada maneira, mas também da forma oposta. Não é nada complicado concluir que o partido se limita a ajeitar-se ao apertado caminho que o líder definiu como lógica para o exercício da governação. Sem maioria, sustenta-se no desempenho de curto prazo, num jogo perigoso de dependências, ora piscando o olho ao PS ora ao Chega. É um percurso arriscado, que não é novo, mas que evita a clareza de alianças, as quais provavelmente acentuariam ainda mais as divergências internas de que o PSD é feito e abririam brechas no frágil cimento que dá consistência a esta Direção. Poucos se esquecem do que foi o Bloco Central, dos tempos de Mário Soares e Mota Pinto, e muitos são os receios quanto a um encontro de vontades descarado, ou mesmo mal disfarçado, com o Chega.
A consequência disso é uma gestão do País feita a pensar em horizontes de curto prazo, mesmo que se apregoe o contrário. A adoção de medidas de fundo, as que se rotulam de reformas estruturais, dificilmente serão mais do que remendos naquilo que existe, já que consensos alternados entre direita e esquerda darão, como é fácil antever, um modelo cheio de disparidades, onde não se identifica nem o talho da carne nem a banca do peixe. Se se tratasse de uma pessoa, o desequilíbrio psicológico derivado de tal indefinição já a teria atirado para o divã do psiquiatra.
Cada vez que fala, Passos Coelho lança a inquietação no universo partidário. Ao apregoar que o País precisa de coerência e coragem nas opções e ao pressionar o Governo para reformas, alegando que já chega a inação do período de António Costa e do PS, que se prolongou por oito anos, o antigo líder social-democrata, por muito que recheie de bondade patriótica as suas palavras, obviamente deixa claro que possui uma visão para Portugal, que não se compagina com a prática política do Governo do seu partido. É indisfarçável, mesmo que tente revestir o discurso do distanciamento que advém da independência e da docência universitária.
Passos Coelho está posicionado ao virar da esquina e é mais do que mero observador. Disponível para reentrar em cena, se o PSD lhe abrir as portas. Resta saber que PSD seria esse ou que PSD resultaria de um seu eventual regresso ao ativo. Claramente, o cinzento não é a sua cor preferida, na prática política que defende. Já se tinha percebido, de intervenções dispersas, que não era preciso chamar um bruxo para adivinhar quem escolheria para dançar com ele a valsa. Agora, todas as dúvidas foram apagadas.
Luís Montenegro vai ser acompanhado pela sombra do antigo líder para onde quer que enverede. Não terá vida fácil: no partido, com as fações internas a agitarem-se, como ficou claro com duas derrotas importantes que sofreu em distritais; no Governo, com os ministros a agruparem-se naquilo que parece serem duas tendências distintas, no que diz respeito a estratégia política. Acresce que, para reforçar este quadro, a partir da próxima semana, um novo Presidente da República não será meigo relativamente a dossiers que considera fundamentais para a melhoria da vida dos portugueses, com a Saúde à cabeça.
Os tempos que se avizinham anteveem-se complexos. Resta-lhe a consolação de o PS, a eclipsar-se, estar sem identidade nem rumo, anémico no debate interno e sem capacidade de mobilização.
