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Um novo homem no Fed

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17.03.2026

Donald Trump (DT) indicou há semanas Kevin Warsh para futuro presidente Federal Reserve System, o Banco Central dos Estados Unidos. Tudo indica que a nomeação será confirmada pelo Senado. Esta nomeação é importante para o mundo por duas ordens de razões. Por um lado, representa um teste à figura da independência dos bancos centrais na definição e condução da política monetária; por outro, levanta questões pertinentes sobre a definição da política monetária num contexto de boom da IA.

Durante o primeiro ano do seu segundo mandato, DT levou a cabo um feroz braço de ferro com o Fed na pessoa de Jay Powell, cujo objetivo último é tentar estabelecer a dominância do executivo na fixação das taxas de juro. Face a uma dívida pública enorme e que ameaça tornar-se insustentável, a administração deseja que o Fed ajude a servi-la, baixando das taxas de juro, independentemente das indicações baseadas na análise dos dados empíricos sobre as tensões inflacionistas. DT espera que um Fed presidido por alguém mais acomodatício ceda.

Kevin Warsh foi governador do Fed entre 2006 e 2011 e, durante o mandato de Obama ganhou fama de falcão. Mas, agora, afirma que antevê uma oportunidade para uma baixa das taxas de juro, justificada pela antecipação de um milagre de produtividade induzido pela IA. Nas suas palavras, o boom da IA representa a «maior vaga de aumento da produtividade jamais registada - no passado, presente ou futuro», ou seja, um enorme choque positivo de oferta. Esta mudança de posição, (e o facto de ser Republicano e parte, por casamento, do círculo de Mar a Lago), faz com que muitos suspeitem da sua independência, vendo-o como alguém que defende políticas restritivas quando os Democratas estão no poder, mas é uma ‘pomba’ para as administrações Republicanas, (isto sem embargo das decisões sobre as taxas de juro serem tomadas por comité onde o Presidente tem apenas um voto). Contudo, o seu argumento para se baixarem as taxas de juro merece consideração e análise. Recorde-se, por exemplo, que em 1996 Alan Greenspan também argumentou que se registavam ganhos de produtividade não capturados pelos dados agregados que justificavam adiar um aumento das taxas de juro.

Para a maioria dos economistas nos EUA, os ganhos de produtividade prometidos pela IA ainda não são significativos e levarão muito mais tempo a materializar-se do que os tecno-otimistas creem. Por exemplo, a produtividade nos EUA - medida pelo produto real por hora trabalhada - terá crescido 1,9% em 2025, um valor um pouco abaixo da tendência de longo prazo (2%). Uma recensão recente do The Economist de estudos de caso sobre a adoção, utilização efetiva e benefícios concretos desta tecnologia, estima (admitidamente back-of-the-envelope) um contributo da IA de apenas 0,25 a 0,5 pontos percentuais para o crescimento da produtividade. Se a história servir de guia, a materialização dos ganhos de uma revolução tecnológica leva muito tempo, pois requerem a reengenharia dos processos produtivos e a reorganização das próprias empresas. Deste modo, até agora o boom da IA terá estimulado sobretudo a procura agregada (investimento em infraestruturas de IA tais como data centers) mais do que aumentado a capacidade produtiva; tal, se alguma coisa, gerará pressões inflacionistas. Mais fundamentalmente, qualquer que sejam as perspetivas do impacto da IA da produtividade, no longo prazo o crescimento da produtividade não determina a inflação, a qual é «sempre e em toda a parte, um fenómeno monetário». Se a IA vier a acelerar sustentadamente a produtividade, a consequência será aumentar a taxa de juro real compatível com uma inflação estável. Para prevenir inflação os bancos centrais devem, portanto, manter taxas de juro nominais mais elevadas e não mais baixa. Ou seja, o argumento de Kevin Warsh é um non sequitur.

Tudo somado, ecoando Martin Wolf do FT, a questão de se o futuro presidente da Fed será um falcão ou ‘um cachorrinho de Trump’ permanece em aberto.

Professor universitário


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