Ventura como sintoma: Psicanálise do regime político português
Um olhar psicanalítico sobre a convergência de forças tão díspares, da direita democrática à esquerda radical, passando pela comunicação social, contra a figura de André Ventura revela menos sobre o político em si do que sobre os mecanismos psíquicos coletivos que ele ativa. Não se trata de mera oposição ideológica, mas de uma reação defensiva de natureza simbólica. Ventura não funciona como adversário político clássico. Opera como sintoma, como formação de compromisso que dá expressão, de forma excessiva e distorcida, ao que a ordem política portuguesa recalcou desde o pós 25 de Abril.
Esse recalcado corresponde ao lado obscuro da democracia portuguesa: o ressentimento acumulado de quem se sentiu traído por sucessivas elites, a humilhação silenciosa de um país periférico permanentemente tutelado, a ansiedade das classes médias em declínio, a experiência difusa de desordem social e, sobretudo, o desejo inconfessado de autoridade e limite. Para que o regime se pudesse apresentar como moderado, europeu e civilizado, estes afetos foram sistematicamente expulsos do discurso legítimo. A psicanálise ensina, porém, que o recalcado não desaparece. Regressa sob a forma de sintoma. Ventura encarna esse regresso não porque introduza conteúdos inéditos, mas porque os exprime fora dos códigos de contenção simbólica que estruturam o espaço público.
Uma análise rigorosa exige, contudo, reconhecer um limite desta grelha interpretativa. Ler Ventura apenas como sintoma comporta o risco de atenuar a sua responsabilidade enquanto agente político. Há nele uma dimensão ativa e performativa que não se reduz à função de mensageiro do recalcado coletivo. Ventura não se limita a exprimir afetos latentes. Organiza-os, dramatiza-os e instrumentaliza-os, convertendo ressentimentos difusos em capital político consciente. O seu discurso não é apenas expressão. É também produção de sentido.
Este reconhecimento não invalida a leitura sintomática, mas obriga a refiná-la. Em psicanálise, o sintoma não é passivo. Possui eficácia própria e produz efeitos reais. Ventura emerge de uma crise profunda de representação, mas contribui igualmente para a sua intensificação, ao oferecer formas simplificadas e moralizadas de interpretar o mal-estar social. O problema para o regime não reside apenas no que ele revela, mas também no modo como pode cristalizar esse mal-estar numa lógica de confronto permanente, empobrecendo ainda mais o espaço simbólico comum.
Evita-se assim tanto a demonização moral como a romantização involuntária do fenómeno. Ventura não é apenas produto do sistema que o........
