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O Primo Basílio (versão 2026) ou seguras desventuras

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02.02.2026

Nesta nova edição, cujo tema principal é o adultério político, avulta, em tintas carregadas e com solene compostura, a personagem sublime do Conselheiro Tozé. O enredo é notável. Às infrações de Luísa à fidelidade matrimonial, discretas mas persistentes, somam-se agora as infidelidades políticas, bem mais ruidosas e universalmente toleradas. Socialistas e não-socialistas, liberais e antiliberais, católicos e ateus, democratas-cristãos, comunistas e maoistas: toda a gente, da direita à esquerda, se apaixona de súbito pela figura reservada do Conselheiro Tozé, vendo nele aquilo que mais lhe convém ver e nada daquilo que o obrigaria a decidir.

Nas páginas do livro, Tozé não se compromete com nada. Circula entre salões e convicções com a mesma elegância neutra, fala em pactos, consensos, intenções e princípios, sempre no plural e nunca no concreto, precedendo cada afirmação de uma pausa grave, como quem pesa a responsabilidade do mundo antes de dizer quase nada. Gosta particularmente de começar frases com expressões como “é preciso refletir”, “o país exige serenidade” ou “não devemos fechar portas”, fórmulas que lhe permitem terminar invariavelmente no ponto exato onde começou. Não vai além disso, nem parece sentir necessidade de o fazer. A sua autoridade nasce precisamente dessa suspensão perpétua, dessa........

© SOL