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O novo mundo não se pensa com ideias velhas

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07.04.2026

A ordem liberal internacional tornou-se um dos principais focos de tensão no debate nos últimos anos. Discute-se se está a ser atacada ou apenas transformada. Para compreender o fenómeno, é necessário rigor e separar análise de tomadas de posição morais ou ideológicas.

O problema dessa ordem, como sucedeu em outros paradigmas, não é apenas o da sua contestação externa, mas o da crescente incapacidade interna de se reproduzir como forma convincente de organização política. O que está em causa não é apenas a estabilidade de um sistema internacional, mas a erosão do quadro mental que o tornava inteligível. Falar de uma nova realidade com instrumentos antigos é falhar o alvo e tomar apenas posições moralistas.

A mundividência liberal-progressista não está a atravessar apenas uma crise conjuntural ou um processo de adaptação gradual, mas a viver um colapso paradigmático. Aplicando à política a grelha analítica de Thomas Kuhn, desenvolvida para a compreensão das revoluções científicas, observa-se que as categorias fundamentais que organizaram a política, a economia, a tecnologia e a cultura do pós-guerra deixaram de explicar a realidade e de orientar a ação. A analogia não deve, contudo, ser tomada em sentido estrito. A política não funciona segundo critérios de validação equivalentes aos das comunidades científicas, nem os seus paradigmas colapsam por simples refutação empírica. Ainda assim, a noção de paradigma conserva utilidade heurística para descrever momentos em que um quadro de inteligibilidade perde capacidade orientadora e entra em conflito com os próprios factos que antes conseguia integrar. A chamada nova ordem mundial não constitui ainda um sistema coerente; resulta antes de uma transição instável, em que o paradigma anterior continua a estruturar instituições, enquanto o novo já molda os factos.

A ordem liberal internacional, consolidada após 1945 e apresentada como vencedora definitiva após 1989, foi frequentemente descrita como inevitável e universal. No entanto, tratou-se sempre de um paradigma historicamente situado. Assentava numa combinação específica de soberania liberal clássica, globalização económica expansiva, democracia representativa entendida como horizonte final da história, crescimento económico ilimitado, confiança na neutralidade do progresso tecnológico e hegemonia cultural ocidental. Este conjunto de pressupostos funcionou não por ser universalmente válido, mas por coincidir com um momento singular de supremacia económica, militar, cultural e tecnológica do Ocidente. Mais do que um simples arranjo institucional, este paradigma assentava também numa determinada conceção do homem, da história e da legitimidade: um sujeito abstrato, progressivamente desvinculado de pertenças densas, inserido numa história supostamente orientada para a expansão contínua de direitos, mercados e integração.

O erro central deste paradigma foi confundir hegemonia com universalidade e uma experiência histórica particular com norma moral absoluta. A ordem liberal deixou de se conceber como uma fase da história e passou a apresentar-se como o seu termo. A partir desse momento, qualquer alternativa deixou de ser tratada como concorrente legítima e passou a ser interpretada como desvio, atraso ou ameaça. Ao absolutizar os seus próprios pressupostos históricos, o liberalismo deixou de se........

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