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De Trump a Magyar: A revolta e o futuro do conservadorismo

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15.04.2026

Num dos processos jurídicos mais reveladores do século XXI nos Estados Unidos, o magnata dos media Rupert Murdoch utilizou como argumento de defesa, para alterar a correlação de poder entre os filhos no seio da sua empresa, que apenas um deles garantiria a manutenção de uma visão conservadora, enquanto os outros representariam a visão típica do liberal-progressismo. Dizia Murdoch que o canal televisivo Fox e os seus jornais eram das poucas vozes vagamente conservadoras face a meios de comunicação liberais monolíticos. Manter essa voz conservadora era, no seu entender, vital para o futuro do mundo anglófono. Ceder totalmente o poder às elites culturais liberais e às suas visões progressistas do homem desenraizado, conhecidas pelo conceito "woke", seria acelerar a destruição da civilização ocidental.

Este processo decorre praticamente em paralelo com uma alteração ideológica de grande relevo no mundo anglo-saxónico. A luta travava-se não só entre a visão do mundo conservadora e a liberal-progressista, mas também no interior do próprio conservadorismo norte-americano. Donald Trump tornou-se a figura maior desse novo conservadorismo, e o episódio Murdoch-Trump simboliza uma passagem histórica: do conservadorismo de elite ao conservadorismo de revolta popular.

Murdoch encarna um conservadorismo de elite empresarial e cultural dos anos 80 a 2000, que representava valores tradicionais, família, religião, patriotismo e livre mercado forte, mas dentro de um quadro globalista e institucional. A sua orientação era a de que a direita deveria lutar contra o monólito liberal-progressista nos media, nas universidades e na cultura. Era anti-"woke" no plano cultural, não antielitista.

O próprio Murdoch é representante maior de uma elite transnacional, australiano-britânico-americano. Apoiava a imigração qualificada, o comércio livre, o neoconservadorismo em política externa, nomeadamente a guerra do Iraque, e um capitalismo corporativo sofisticado. O seu receio principal era a destruição civilizacional provocada pelo progressismo cultural desenraizado. A sua conceção de conservadorismo é, neste sentido, relevante para compreender a transformação que se operava no seio do próprio conservadorismo: um conservadorismo que combatia o progressismo cultural, mas que nunca pôs em causa as estruturas globais e institucionais em que ele próprio prosperava.

O fator Trump não será apenas um epifenómeno de rutura no sistema americano devido ao carisma de uma personagem, mas o produto de um contexto que permite o seu surgimento: o esvaziamento económico de vastas regiões do interior americano, o impacto devastador da globalização sobre a classe trabalhadora branca e latina, o colapso da mobilidade social intergeracional, a crescente desigualdade entre as grandes metrópoles costeiras e o interior do país e o sentimento de que as elites, tanto democratas como republicanas, tinham abandonado qualquer compromisso real com a soberania nacional e com o bem-estar do........

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