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A liberdade é de esquerda? O equívoco do nosso tempo

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28.04.2026

Os conceitos de liberdade e justiça, bem como a tensão entre ambos, constituem um aspeto nuclear da política contemporânea. É a relação entre eles e o primado de um sobre o outro que define um ponto de partida incontornável das ideologias modernas. Até que ponto podemos ser plenamente livres e justos ao mesmo tempo? Haverá compatibilidade real entre os dois? Se mais justiça significar menos liberdade, justifica-se essa escolha? Ou seria inaceitável cercear a liberdade em nome de uma justiça maior? A liberdade individual é um bem inalienável e intangível? Ou deve ela ser limitada e moldada se beneficiar um maior número?

A distinção proposta por Isaiah Berlin legou-nos uma divisão do conceito de liberdade que nos ajuda a compreender como diferentes tradições políticas podem até reivindicar a linguagem da liberdade sem se contradizerem em relação às suas práticas. Berlin distingue entre liberdade negativa, que significa a ausência de coerção externa, particularmente do Estado nas ações individuais, e liberdade positiva, entendida como capacidade efetiva de autodeterminação, possibilitada num contexto em que o Estado funciona, regra geral, como garante dos recursos para a realização de cada um. A liberdade negativa constitui o núcleo do liberalismo clássico e foca-se na pergunta sobre qual é o espaço em que a interferência exterior condiciona de modo inaceitável a autonomia de cada um. A liberdade positiva permite-nos compreender melhor o uso do conceito pela esquerda democrática e pelo progressismo. Nesta perspetiva, ela está subordinada às condições materiais e sociais que permitem ao indivíduo agir de modo considerado livre. É neste sentido que a esquerda democrática pode reivindicar a centralidade da liberdade e, simultaneamente, justificar políticas de redistribuição e intervenção estatal, não como restrições ao seu exercício, mas como condições da sua realização efetiva. Ora, essa interferência é considerada, para os defensores de uma visão mais radical desta, uma apologia de uma liberdade ilusória.

O caso venezuelano e cubano representa a esquerda na sua versão autoritária, longe portanto da esquerda democrática, e ilustra com precisão o mecanismo que Berlin descreveu. Hugo Chávez chegou ao poder em 1999 com uma promessa de libertação: do imperialismo norte-americano, das elites oligárquicas, da pobreza estrutural que afastava milhões do exercício real de qualquer direito. A linguagem era de liberdade positiva na sua forma mais sedutora, não a liberdade formal de quem não tem o que comer, mas a liberdade real de quem passa a ter saúde, educação e dignidade. O que se seguiu foi a captura progressiva das instituições, a eliminação da imprensa independente, a perseguição da oposição e, sob Maduro, uma crise humanitária que forçou mais de sete milhões de pessoas a abandonar o país. A liberdade invocada para justificar o poder tornou-se o argumento para o concentrar.

Um outro exemplo assustador dessa tensão identificada por Isaiah Berlin encontra-se no núcleo das próprias democracias liberais contemporâneas. Políticas inspiradas na economia comportamental, como as propostas por Cass Sunstein e Richard Thaler, moldam........

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