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A lenta morte da classe média portuguesa

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22.04.2026

Temos cinquenta e dois anos de democracia, integração plena na União Europeia, crescimento económico previsto de 1,8% a 1,9% para 2026, segundo as projeções do Banco de Portugal e do FMI. Em teoria, o país funciona, existem instituições sólidas e contas certas, mas, na prática, ano após ano, o motor social funciona de modo medíocre e, a qualquer abalo, o país precisa de ajuda externa.

O país "funciona" bem para os credores e para os indicadores de Bruxelas, mas falha no contrato social com os seus cidadãos. Sem uma reforma profunda no sistema fiscal, nomeadamente através do alívio da tributação sobre o trabalho, e sem um choque real de produtividade, até este crescimento de 1,9% é apenas um número vazio para a maioria da população.

Os Inquéritos ao Emprego do INE permitem identificar trabalhadores com mais de um emprego, mas sub-registam situações informais e de trabalho independente acumulado. Com base nessa fonte, estima-se que entre 3% e 4% da população empregada declare mais de um vínculo laboral, o que representa, em termos absolutos, várias dezenas a algumas centenas de milhares de pessoas. A magnitude real é provavelmente superior, mas não quantificável com rigor a partir dos dados disponíveis. Os dados permitem afirmar com segurança que a pressão sobre o rendimento disponível é suficientemente elevada para tornar o pluriemprego uma estratégia recorrente e não uma exceção marginal. Recorrendo aos dados do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Segurança Social, considerando a distribuição salarial declarada, sabemos também que cerca de dois terços dos trabalhadores por conta de outrem auferem menos de mil euros brutos mensais.

Uma reportagem publicada pelo Jornal de Notícias em abril de 2026 refere estes dados, em paralelo com conclusões do relatório Fundamentos para o Crescimento e a Competitividade 2026, publicado pela OCDE a 9 de abril de 2026. E diga-se que pouco destaque mediático ou político tiveram. Mas as evidências factuais são da maior relevância, ainda que amplamente ignoradas.

O desempenho........

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