A Semana (de 28 de fevereiro a 4 de março)
O início da guerra no Irão
Como se esperava, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão. O objetivo inicial foi decapitar o regime, alcançado em grande medida no primeiro dia da guerra com a morte do Supremo Líder, Khamenei, dos chefes das forças armadas e da Guarda Revolucionária, e do ministro da Defesa. O Governo israelita já afirmou que tentará eliminar o sucessor de Khamenei, que poderá ser o seu filho, de acordo com rumores vindos do Irão. O facto do sucessor ainda não estar escolhido (ou anunciado) mostra os receios do regime iraniano. A morte do sucessor, dias depois da sua escolha, seria terrível para o regime iraniano.
O segundo objetivo da guerra é a destruição da capacidade militar do Irão e do que resta do seu programa nuclear. Será mais demorado, mas o Irão está visivelmente mais fraco. A sua força aérea não existe, com os americanos e os israelitas a controlarem o espaço aéreo do Irão. A sua marinha também foi quase toda destruída. Restam ao Irão mísseis e drones. Será muito difícil destruir os últimos, e com o tempo serão a principal arma ofensiva do Irão.
O terceiro objetivo é o enfraquecimento do regime, senão mesmo a sua destruição, com a continuação dos ataques a bases e instalações da Guarda Revolucionária, o principal pilar do Governo iraniano. Esta é a questão mais complicada, e os planos norte-americanos não são claros. Por vezes, Trump fala de mudança de regime, apelando à revolta da população iraniana. Não é possível mudar um regime com ataques aéreos, e Trump já disse que não enviará tropas para o Irão. A mudança de regime está assim dependente da capacidade da população iraniana para derrotar o regime. Neste momento, estamos longe disso. O regime mantém os meios de repressão interna e não hesita em matar dezenas de milhares de iranianos, como fez em Janeiro.
Outras vezes, os americanos sugerem que podem fazer um acordo com setores mais moderados do regime iraniano. Neste caso, seria uma alteração no regime e não uma mudança de regime. Mas esta estratégia exige semanas de ataques militares. O que resta do regime só aceitará capitular e negociar com os Estados Unidos se perceber que é a única hipótese de sobrevivência e de evitar uma guerra civil no país. Mas os riscos de uma guerra civil e do Irão se transformar num Estado falhado são reais.
Na sua resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irão atacou todos os outros países do Golfo, do Kuwait e do Qatar até aos Emirados e à Arábia Saudita, passando pelo Bahrein. Se tivesse limitado os ataques às bases militares norte-americanas nesses países, seria justificado. Mas o Irão foi muito mais longe, atacou instalações petrolíferas, em Abu Dhabi, na Arábia Saudita e no Kuwait, as operações de gás no Qatar, e alvos civis em todos os países. O Irão fez quase tantos ataques contra Abu Dhabi e o Dubai como contra Israel.
Foi o maior erro cometido pelo Irão. A partir de agora, todos os países do Golfo são a favor de uma mudança de regime no Irão. Nunca mais confiam no atual regime, nem o Qatar que sempre teve uma relação próxima com o Irão. Em vez de pedirem aos Estados Unidos para acabar com a guerra, irão insistir para continuar a atacar o Irão até o regime cair. O erro monumental do Irão só pode ser explicado por falta de liderança. As decisões militares devem estar a ser tomadas por diferentes grupos sem uma hierarquia de autoridade clara.
A fraqueza do Reino Unido
O PM britânico, Starmer, começou por recusar o uso das bases britânicas pelos Estados Unidos. Já recuou e as forças americanas já estão a usar instalações militares britânicas, nomeadamente a base de Diego Garcia. A razão que levou o Governo britânico a tomar esta atitude é muito preocupante. Esqueçam a «violação do direito internacional», justificação dada por Starmer, esse é um argumento dos fracos que procura esconder as verdadeiras causas.
O Reino Unido já chegou a um ponto em que os grupos radicais islâmicos, espalhados por todo o território, influenciam a política externa do país. O Partido Trabalhista vive um pesadelo: o crescimento de um partido de esquerda radical que está a tirar votos ao Labour, os Verdes. No Reino Unido, os Verdes estão aliados aos grupos islâmicos. Uma aliança muito estranha, com grupos de países que desprezam políticas ambientais. A agenda da aliança entre os Verdes e os Islâmicos resume-se ao ataque aos valores ocidentais, desde a economia de mercado aos princípios políticos liberais e aos valores judaico-cristãos. A coligação Verde-Islâmica é obviamente contra a intervenção militar no Irão e é amiga do regime iraniano. Na última sondagem, os Verdes ultrapassaram o Partido Trabalhista. Esta é a razão por que Starmer não apoiou os Estados Unidos no Irão e invocou o ‘direito internacional’.
O oportunismo de Pedro Sanchez
O PM de Espanha foi o outro líder socialista da União Europeia (e da NATO) que criticou abertamente os ataques militares dos Estados Unidos contra o Irão. Tal como Starmer, Sanchez refugiou-se no ‘direito internacional’, mas as suas razões e intenções nada têm a ver com a ordem jurídica global (no caso de existir uma...).
Antes de mais, Sanchez está a tentar utilizar a guerra no Irão para recuperar popularidade em Espanha. O PSOE sofreu uma pesada derrota nas eleições na província de Aragão e enfrenta mais duas eleições regionais até ao verão, em Castilla y Leon e na Andaluzia. Se o PSOE perder ambas as eleições, ficará numa posição muito complicada para as eleições legislativas do próximo ano. Se o PSOE recuperar, ganhando pelo menos na Andaluzia, e Sanchez ganhar popularidade, o PM poderá mesmo avançar para eleições antecipadas ainda este ano.
A segunda razão é semelhante ao que aconteceu no Reino Unido. Os parceiros de coligação de Sanchez são profundamente anti-americanos e têm relações próximas com o islamismo radical, com o próprio Irão e até com grupos terroristas. É impressionante como as esquerdas espanholas desenvolveram relações próximas com regimes como o de Maduro, o iraniano e o cubano. Sanchez também está a construir relações cada vez mais próximas com a China. Neste momento, quando a União Europeia se afasta da China, a Espanha e a Hungria aproximam-se.
O Governo português esteve bem em relação à guerra no Irão, colocando-se ao lado de uns dos aliados mais importantes, como os Estados Unidos, contra um regime odioso, e permitindo o uso da base das Lages. Aqueles no PS e entre as esquerdas que gostariam de ver Portugal seguir a Espanha nada percebem sobre a política externa portuguesa. Ao contrário da Espanha, Portugal é membro fundador da NATO. A Espanha só aderiu em 1982 e só participa no comando militar da Aliança Atlântica desde 1999 (50 anos depois da criação da NATO). Além disso, a oposição espanhola torna ainda mais importante o apoio português. Reforça a importância de Portugal, no contexto da Península Ibérica, na NATO.
Os limites do poder da China e da Rússia
Em dois meses, a China e a Rússia viram os Estados Unidos prender e matar dois dos seus principais aliados (Maduro e Khamenei). Nada puderam fazer para o evitar. A partir de agora todos os ditadores vão pensar muito bem antes de concluírem que uma aliança com Pequim e Moscovo os protege dos Estados Unidos.
Há cerca de dois anos, dizia-se que a China se tinha tornado na principal potência externa no Golfo, depois de ter mediado um acordo de paz entre a Arábia Saudita e o Irão. Como se vê agora, mais uma conclusão precipitada. Neste momento, dois dos principais fornecedores de petróleo da China, o Irão e a Arábia Saudita estão em conflito um com o outro. E Pequim prepara-se para começar a usar as suas reservas estratégicas de petróleo.
