A Semana (8 a 12 de fevereiro)
Fui passar o fim de semana a San Sebastian com um grupo de amigos. A viagem foi para celebrar o centenário da publicação do primeiro livro de Ernest Hemingway, Fiesta (título em inglês, The Sun also Rises), em 1926. O enredo do livro passa-se essencialmente em Paris e em Pamplona, mas San Sebastian era uma cidade do agrado de Hemingway, onde passou longas temporadas e onde se banhava na praia de La Concha.
San Sebastian é uma bela cidade, organizada à volta da baía onde se encontra a praia de La Concha. Os edifícios são bonitos, tanto nas avenidas modernas, como na parte velha da cidade, as ruas são limpas e espaçosas, e as pessoas simpáticas. Come-se lindamente, desde tapas até pratos de peixe e de carne. Apesar de se situar no País Basco, é uma cidade muito espanhola. Toda a gente fala castelhano, e são muito poucos os que se exprimem em basco. Não tem nada a ver com o que se passa em Barcelona, onde o catalão é a língua dominante. San Sebastian é um óptimo destino para passar um fim de semana agradável.
António José Seguro, o novo PR
António José Seguro ganhou as eleições, e com uma larga vantagem. Não era o meu candidato, mas merce as minhas felicitações. Em democracia, não há vencedores injustos. Dito isto, a dimensão da vitória não será uma fonte de poder e de influência. O poder conquista-se com o exercício das funções. Daqui a uns meses já ninguém se lembra da votação de Seguro.
Foi o eleitorado de direita que deu a vitória a Seguro (sem o meu voto, obviamente). Custa-me ver as direitas divididas, mas Seguro não é o culpado. Há culpados, mas estão todos nas direitas. A verdade é que há muitos eleitores que votam à direita, mas não são capazes de votar em Ventura. Conseguirá Ventura e o Chega diminuírem a taxa de rejeição? É uma questão central para o futuro da política portuguesa. Mas os dirigentes do Chega não podem repetir o erro daqueles que criticam os seus eleitores, e atacarem agora pessoas de direita por não votarem em Ventura. Em democracia, os eleitores estão certos. Cabe aos políticos perceber o que fazem mal, melhorar e convencer os eleitores.
Em relação aos três partidos principais do sistema político, há alguma notas a fazer. A AD e o PSD devem perceber que o Chega não baixará dos 20%. Passou a ser um dos três grandes num sistema partidário que foi sempre bipolar desde o 25 de Abril. Foi uma revolução, mas é a realidade.
O Chega deve entender que se não mudar de discurso e de estratégia nunca passará dos 30% nas eleições legislativas e certamente nunca chefiará um governo. Ventura muda ou nunca será PM.
O PS ainda não entendeu que não ganhou as eleições presidenciais. Foi Seguro que venceu. Alguns dirigentes do PS acham que a vitória eleitoral está ao virar da esquina. Não está, e muito menos estará uma maioria de esquerda parlamentar. O líder do PS não esperou mais de um dia para apelar à ajuda do Presidente Seguro. Foi um duplo erro. Antes de mais, apelou a Seguro para não ser imparcial, o que constitui uma violação da Constituição. Depois, passou uma imagem de fraqueza, mostrando que não consegue liderar o PS sem a ajuda do novo PR.
As eleições regionais em Aragão, Espanha
No domingo em Aragão, nas eleições regionais, o PSOE de Pedro Sanchez sofreu mais uma derrota pesada. Ficou em segundo lugar, com 24.3% dos votos, mas perdeu 5 deputados no parlamento regional. Foi um dos piores resultados do partido na região. O PP ganhou com 34.3% dos votos, mas perdeu dois deputados regionais. De certo modo, o grande vencedor foi o Vox, apesar de ter ficado em terceiro lugar, com 17.9% dos votos. O partido duplicou o número de votos e é essencial para formar maioria parlamentar com o PP. Deverá haver um governo de coligação entre o PP e o Vox.
As eleições na região de Aragão merecem uma leitura mais abrangente porque a região reflecte, normalmente, os resultados nacionais. Aragão é conhecida como o ‘Ohio de Espanha’, é um bom barómetro para as eleições nacionais. Este ano haverá ainda duas eleições regionais, em Março em Castilla y Leon, e em Junho na Andalusia. Mais duas vitórias do PP, em maioria com o Vox, e parecerá claro que os dois partidos formarão o próximo governo nacional depois das eleições de 2027. Até poderá acontecer, se o PSOE sofrer duas derrotas pesadas, que Sanchez seja obrigado a convocar eleições antecipadas para este ano.
A demissão da ministra da Administração Interna
A ministra da Administração Interna não resistiu às pressões políticas e pediu a demissão. Aparentemente, o PM vai acumular com a pasta da Administração Interna durante uns tempos. Julgo que Montenegro faz bem. A situação em Portugal está muito complicada, e exige-se uma liderança política forte. Só o PM pode liderar.
Bem sei que a comunicação social e as oposições só olham para o que corre mal, e para os momentos infelizes dos ministros. Mas também há ministros com um bom desempenho. Graça Carvalho tem sido uma surpresa agradável. Aparece com uma imagem positiva, dá tranquilidade e calma às populações. Não atrapalha as forças no terreno. Pelo contrário, está com naturalidade ao lado delas. Miguel Pinto Luz também tem estado bem. Tem sido muito claro em relação às dificuldades no restabelecimento das vias de comunicação. Não tem medo de ser realista e de dar notícias difíceis aos portugueses, explicando de um modo adequado os problemas que enfrentamos. As crises políticas são reveladoras. Nuns casos, expõem as limitações de alguns políticos. Noutros casos, mostram qualidades que eram desconhecidas do público. As boas surpresas do governo têm sido Graça Carvalho e Miguel Pinto Luz.
Depois da crise, espero que o governo seja verdadeiro com os portugueses e faça três coisas:
1. Explique as razões por que o Estado não respondeu como devia.
2. Mostre que aprendeu a lição e diga o que é necessário fazer para resolver os problemas e as limitações do Estado.
3. Anuncie as prioridades e um plano de ação para lidar com esses problemas durante o resto do mandato.
Uma observação final. Ao contrário da liderança do PS, que aproveita a crise para pedir demissões, observo que os autarcas socialistas estão a trabalhar bem com os ministros. Gosto de ver políticos de partidos diferentes a trabalharem juntos para ajudar os portugueses.
O debate na UE sobre os ‘eurobonds’
Há um debate em curso na Europa sobre os ‘eurobonds’. No início da semana, Macron defendeu os ‘eurobonds’ para investimentos em sectores económicos estratégicos. Os governos alemão e italiano responderam, dizendo que há outras prioridades, nomeadamente a desregulação e o fim das barreiras protecionistas no interior da União Europeia. Mas não recusaram os ‘eurobonds’; aliás, a Itália defende a emissão de dívida comum.
Mas a grande mudança em relação ao debate aconteceu no BCE e, sobretudo, no Bundesbank. Numa entrevista, hoje, o governador do Bundesbank defendeu os ‘eurobonds’’, o que marca uma alteração profunda em relação à posição tradicional do banco central alemão. Como afirmou: «A tradição respondia às realidades do passado, hoje a realidade mudou». A nova realidade de que fala Nagel é o enfraquecimento do dólar e a oportunidade de reforçar o estatuto global do euro (mas não fala da substituição do dólar como moeda de referência mundial). Mas o reforço do estatuto global do euro exige um mercado de dívida soberana da zona euro muito mais líquido, o que significa mais investimento externo no euro. Dito de outro modo, os ‘eurobonds’ vão reforçar a liquidez do euro e aumentar o investimento externo na União Europeia. Para Nagel, um euro mais forte no plano internacional exige mais dívida comum europeia.
O governador do Bundesbank foi mais longe. Afirmou que os ‘eurobonds’ devem ser acompanhados pela redução das dívidas soberanas nacionais. No fundo, está a apelar à transferência das dívidas soberanas nacionais para uma dívida comum europeia. No fundo, é uma repetição do processo de integração europeia. Os países europeus abdicam de competências soberanas absolutas a favor de uma soberania comum europeia.
Continuação do debate na UE sobre os ‘eurobonds’
Os líderes europeus reúnem-se num Conselho Europeu informal nos arredores de Bruxelas. Um dos pontos de discussão será a dívida comum europeia. O BCE enviou uma carta para os líderes a defender os ‘eurobonds’.
Desconfio que a emissão de mais dívida comum europeia será inevitável. Mas será gradual, e ninguém espere que o euro vá concorrer com o dólar. Os estados-membros também serão chamados a fazer reformas para diminuir a despesa pública e a dívida soberana.
