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Como se atrevem, iranianos?

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04.03.2026

A ingratidão é um dos piores defeitos do ser humano. São Tomás de Aquino considera-a um vício e um pecado. A Filosofia trata-a como uma falta de caráter, ausência de moral, défice de razão. Dante associa-a à traição e reserva-lhe o nono círculo do inferno. Ninguém está imune à sua perfídia. Eis exemplos de grandes homens vítimas de ingratidão.

Mao Tsé-Tung considerou que os gafanhotos que devastaram a agricultura chinesa causando milhões de mortos foram ingratos porque antes ele tinha mandado matar os pássaros que os comiam. Estaline considerou que os milhões de ucranianos mortos durante o Holodomor foram ingratos porque poderiam ter comido os insetos que havia em excesso na China. Os intelectuais franceses que em 77 assinaram uma petição para despenalizar a pedofilia consideraram que as vítimas desses abusos que os criticaram não passavam de insetos ingratos.

A esta lista de ingratidão entomológica juntam-se agora os insetos iranianos que andam nas ruas a armar desacatos, a exporem-se às balas e a envergonhar o regime dos aiatolas. Para entender a ingratidão iraniana temos de voltar a São Tomás de Aquino que considerava que o mal resultava do mau uso do livre arbítrio concedido por Deus. Com a capacidade de antever o futuro que só os santos possuem, Tomás de Aquino olhou para Israel e para os Estados Unidos e viu dois insetos maus. Como tal, os passarões do Bem, como a China e o Irão, têm o dever de devorar aqueles dois bicharocos nocivos.

O problema é que do lado do Bem vultos respeitáveis como as vedetas de Hollywood, uma legião de escritores e artistas, a Greta do Apocalipse, o conde Drácula e praticamente toda a Esquerda mundial estão a ser vítimas da ingratidão do povo iraniano. Em vez de estarem agradecidos por viverem num dos raros países que, se pudesse, exterminava a América, Israel e o F.C.P, o povo do Irão anda a protestar contra conceitos subjetivos e multiculturais como a falta de Liberdade e de Democracia. Ora como essas tais Liberdade e Democracia são invenções do homem branco para subjugar os povos oprimidos do resto do mundo e as minorias dentro dos seus países, assim se vê que os iranianos estão mais desorientados do que uma barata tonta. E quanto ao motivo da crise de alimentos no Irão, como lá não faltam pássaros e gafanhotos, trata-se igualmente de um conceito subjetivo.

Assim, por razões erradas ou subjetivas, os iranianos estão a fazer com que o resto da humanidade que não se dedica ao ativismo considere que aqueles vultos respeitáveis são insensíveis aos direitos dos iranianos ou, pior ainda, à morte dos milhares de homens, mulheres e crianças que o regime tem abatido nas ruas.

Porque se o ingrato está ao nível de um inseto, aquele que despreza a vida humana só pode estar abaixo do esterco onde o inseto chafurda.


© SOL