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Portugal, Irão e o Realismo baseado em valores

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06.03.2026

Vivemos um momento particular em que a geopolítica deixa de ser assunto de academias e passa a entrar pela sala de jantar de cada família portuguesa. 

O que se passa no Médio Oriente não é um conflito longínquo. É um conflito com implicações diretas para a nossa segurança e bem-estar, seja pelo impacto do aumento dos custos energéticos, seja pelo impacto na nossa soberania enquanto Estado.

Portugal não é um país neutro. Somos um país de valores. Estamos ancorados na democracia, no Estado de Direito, nos direitos humanos, e numa aliança atlântica que nos garante segurança há décadas. 

Nenhuma destas âncoras de estabilidade é negociável, independentemente dos ventos que soprem de Washington, de Bruxelas, ou de Teerão, porque nelas assenta a nossa própria sobrevivência como Nação

Por isso, a posição do Governo ao condenar os ataques iranianos aos países vizinhos é coerente com 47 anos de histórico de violações graves por parte do regime de Teerão: do nuclear aos direitos humanos, passando pelo uso sistemático de proxies armados no Líbano, Síria, Iraque, Gaza e Iémen.

Ao mesmo tempo, o facto do Governo sublinhar que a via da negociação deve prevalecer, nos pressupostos da contenção, diálogo e diplomacia, coloca-nos firmemente nos caminhos da Carta das Nações Unidas. num momento em que a tentação do confronto total regressa ao Médio Oriente. 

Ao fazê‑lo, Portugal mantém‑se no espaço geopolítico que defendo para a Europa, não como um “tabuleiro” onde outros jogam, mas um ator que procura combinar firmeza na defesa do Direito Internacional com capacidade de ação política e diplomática. 

Num mundo tripolar, em transição para uma ordem multipolar instável, Estados de dimensão média como Portugal só são relevantes se souberem articular valores, interesses e uma estratégia de política externa consistente.

O teste mais visível desta coerência foi a decisão sobre a Base das Lajes. Portugal exerceu a sua soberania. Utilizou os seus instrumentos de coordenação entre órgãos de soberania, consultando o Presidente da República, informando os líderes partidários e deu uma autorização condicional, estritamente enquadrada nos termos do acordo de defesa que nos vincula aos Estados Unidos. A soberania mede‑se exatamente aqui: na capacidade de dizer “sim” aos aliados, mas nas nossas condições; de dizer “não” quando os nossos princípios o exigem; e, em certos momentos, de deixar falar o silêncio diplomático quando esse é o melhor instrumento para proteger o interesse nacional.

É por isso preocupante ver a tentação alguns atores políticos em Portugal, de transformar a política externa num brinquedo partidário, usando a Base das Lajes como pretexto para combates políticos internos depois de anos de aceitação tácita dos mesmos compromissos. 

Quem aspira a exercer responsabilidades de Estado não pode falar de soberania à segunda‑feira e usá‑la à terça‑feira como mero ruído mediático, sem assumir se quer ou não honrar os compromissos internacionais de Portugal. Num tempo em que a guerra invisível – da desinformação aos ciberataques – redefine o poder e onde a guerra híbrida se tornou o “novo normal”, a credibilidade externa é um ativo tão estratégico como qualquer base aérea ou cabo submarino.

Se tratarmos bem este ativo estratégico, podemos capitalizar a nossa geografia atlântica, que nos coloca no centro do espaço entre as duas maiores economias do mundo, e a nossa história de mediação – de Timor‑Leste a Macau – dão‑nos condições únicas para sermos um porto de abrigo e uma ponte geopolítica entre jogadores que muitas vezes nem se falam. 

A grande dúvida geopolítica que permanece hoje nesta crise do Médio Oriente é: o que vai fazer o povo Iraniano? 

O regime enfrenta a mais grave ameaça existencial desde 1979 em duas frentes: a dos céus, onde se desenrola uma campanha militar de larga escala liderada pelos Estados Unidos e Israel, e a das ruas de Teerão, Rasht, Mashhad ou Zahedan.

A insurreição mantém-se em todas as 31 províncias, com a inflação a rondar os 70%, e as condições de vida vão continuar a deteriorar-se, aumentando a probabilidade de novas manifestações e repressões por parte do regime.

Pela primeira vez desde 1979, o bazar, os estudantes e as classes médias urbanas juntaram-se às minorias étnicas na recusa de uma República Islâmica que, à semelhança de Assad, na Síria, já só consegue governar por via da repressão e crimes contra a humanidade.

É nesta escolha do povo iraniano que reside a próxima oportunidade para países soberanos como Portugal, de se afirmarem num realismo baseado em valores, liderando a Comunidade Internacional na ajuda à reconstrução de um Novo Irão, livre, soberano, comprometido com a estabilidade e com a paz.

Observatório de Segurança e Defesa da SEDES


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