menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Interesses, my dear, interesses

13 15
13.02.2026

Se houvesse uns Jogos Olímpicos do pessimismo os europeus ocupariam todos os lugares do pódio. Duas sondagens publicadas nas últimas semanas confirmam essa percepção. A maioria dos entrevistados pela FGS Global para o Politico nos 27 Estados da União Europeia acredita que o seu país está a seguir um caminho errado. Apenas três deles são exceções: Polónia, Dinamarca e Lituânia. A mesma pergunta feita pela Ipsos indica que 91% dos franceses, 79% dos húngaros, 74% dos holandeses, 71% dos alemães e italianos têm uma visão negativa em relação ao futuro do seu país. 

Este quadro sombrio tem algumas razões de ser. Desde a ameaça de Putin e as reverberações do ‘cisma’ trumpista, o Ocidente geopolítico nascido da Segunda Guerra Mundial vacila. Estamos a entrar numa ordem global mais imprevisível, mais anárquica e multifacetada. Os europeus descobriram a sua solidão e vulnerabilidade em termos de Defesa e terão de operar uma revolução conceptual.

O regresso a uma América do século XIX leva-nos a refletir sobre o que a Europa deve e pode tornar-se neste contexto e, por outro lado, sobre as suas relações futuras com os outros polos ocidentais do mundo: Japão, Coreia do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Israel. Ou seja, estamos numa encruzilhada existencial mas não estamos sós, nem ‘desarmados’, teremos de aprender a operar num sistema de alinhamentos e fidelidades alimentados por interesses.

Tentando de uma forma racional desanuviar o pessimismo note-se que nos 27, ao contrário de muitos outros países, os direitos individuais e coletivos dos cidadãos são protegidos, as liberdades são garantidas e os sistemas de proteção social são seguros. A democracia, apesar das suas falhas, é soberana. A economia é resiliente e continua a progredir. Como resultado, o nível de vida dos europeus nunca foi tão elevado na história. As desigualdades são menos acentuadas do que noutros locais. As cidades europeias estão entre as mais habitáveis do mundo. O sistema educativo é sólido. A desvantagem do pessimismo exagerado é que ele é uma profecia auto-realizável por excelência: é tóxico para o crescimento; paralisa o investimento e a inovação; acelera as recessões. 

Ter de lidar com a extrema complexidade não é um exclusivo europeu. Olhemos para o outro lado do Atlântico, desde que Donald Trump assumiu a presidência em 2017, os comentadores têm procurado um rótulo adequado para descrever a sua abordagem em matéria de política externa. Na Foreign Affairs, Barry Posen sugeriu, em 2018, que a grande estratégia de Trump era a «hegemonia iliberal», e o analista Oren Cass argumentou que a sua essência definidora era uma exigência de «reciprocidade». Trump tem sido chamado realista, nacionalista, mercantilista à moda antiga, imperialista e isolacionista. Cada um destes termos capta alguns aspetos da sua abordagem, mas a grande estratégia do seu segundo mandato presidencial talvez seja melhor descrita como ‘hegemonia predatória’. O seu objetivo central é usar a posição privilegiada de Washington para obter concessões, tributos e demonstrações de deferência tanto de aliados como de adversários, buscando ganhos de curto prazo no que considera um mundo puramente de soma zero. Dados os recursos ainda consideráveis e as vantagens geográficas dos Estados Unidos, a hegemonia predatória pode funcionar por algum tempo. A longo prazo, porém, está fadada ao fracasso, consideram os analistas da Foreign Affairs. Ela é inadequada para um mundo com várias grandes potências concorrentes porque a multipolaridade dá a outros Estados maneiras de reduzir sua dependência dos Estados Unidos. Se continuar a definir a estratégia americana nos próximos anos, a hegemonia predatória enfraquecerá os Estados Unidos e os seus aliados, gerará um ressentimento global crescente, criará oportunidades tentadoras para os principais rivais de Washington e deixará os americanos menos seguros, menos prósperos e menos influentes.

Em suma a Europa não pode dar-se ao luxo nem de ser pessimista, nem de ser a única região do globo a reger-se apenas por princípios nas relações externas, deve incluir nelas uma boa dose de interessespróprios.

Analista de assuntos internacionaise risco geopolítico, Lecturer


© SOL