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O Matuto e o Outono da Vida

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24.03.2026

O Matuto dá as boas-vindas ao Outono que chegou às 11h e 45 minutos. O Senhor João, ilustre pai do matuto, escreveu lá da Lusitânia: “Hoje começou a Primavera, mas por aqui começou com uma cara muito pardacenta, fria e molhada, apesar de começar a meio da tarde – 14H e 46m. Aí começou o Outono ou o Inverno? Nunca sei como são as coisas aí por essas bandas! Este ano está difícil de deixar a roupa térmica, ainda que uma vez por outra lá venha um dia de sol bonito.”

Pois é! Quando é Outono no Sul, é Primavera no Norte — e o Matuto lá se baralha com estas trocas e baldrocas dos hemisférios.

E, hoje, precisamente, o Matuto sentiu o vento de Outono tropical. “Está um fresquinho gostoso, lá fora” – disse Dona Sirlei, a gentil esposa do Matuto. E, na verdade, soprava uma brisa de Outono na ‘Casa das Pontes’. Talvez fossem ventos alísios dirigindo-se apressadamente para outras margens.

Pelas vidraças da ‘Casa das Pontes’ o Matuto observa uma árvore em seus devaneios Outonais. É uma árvore frondosa. De postura altiva. Esta árvore já viu muitos ventos, muita chuva, e muitos sóis vadios. A dois passos dela vive um poste de luz que irradia uma luz crua, mas que não perturba o sono desta árvore bondosa. As crianças procuram a sua sombra, os vagabundos a sua proteção, e os cachorros aliviam nela as suas precisões naturais.

Aí o Matuto dá-se conta de que a bela árvore pavoneava umas folhas amarelas e algumas (no daltonismo do Matuto) tinham estrias vermelhas numa tentativa fantasista de imitar as suas congéneres europeias. O Matuto sussurrou em ‘arvorês’ para a nobre planta: “porque foges ao ritual das tuas irmãs tropicais e te vestes de forma tão singular?”

“Não vês, meu velho!? Estou a outanear. No dia 20 foi o equinócio do Outono. E, embora as minhas amigas não respeitem as estações eu cumpro com o meu dever de grande arbusto”.

“Outanear não é verbo” – abespinhou-se o Matuto.

“Tolices!” – ripostou a nobre planta. “Isto agora anda tudo num desatino. Mas tanto quanto me for possível, vou outaneando. Deves ter reparado, meu velho que tenho comigo uma réstea de Verão, uns lampejos antecipados de Primavera, e no ventinho que me agita as folhas uma suspeita de Inverno”.

“O Mia Couto é que fala assim” – pondera o Matuto.

“Tens razão” – concorda a árvore. “Mia cura-nos dos usos baços e esclerosados da linguagem”.

“Parece-me natural, tudo isso” – reage o Matuto, meio atordoado com tanta sabedoria.

“Não sei, não, meu filho. No teu caso, começo a notar um Outono instalado nos ossos. Esse teu labor de rabiscar e ensinar é uma outonada. Parece-me que em ti o outono é mais uma estação da alma do que da terra”.

O Matuto fica a matutar nestas palavras. Sente este outono como pessoal e intransmissível. Os dardos de luz já ferem os olhos cansados. O peso dos hábitos já faz arfar os músculos. A chuva já fustiga pesadamente a fronte. As folhas caem e os fios de cabelo também. Ao invés de amarelar, branquejam. É essencial não perder a doçura. E nesses ritmos mais pausados há um certo brio. Pundonor.

O Matuto despede-se da sábia árvore.Esta segreda: “Desejo que te outonizes, com graciosidade, meu velho”.


© SOL